Uma reforma moldada pelo PT – Por João Bosco

A se dar crédito às primeiras especulações sobre as possíveis mudanças ministeriais em estudo pela presidente Dilma Rousseff, não há razão para otimismos: por ora, segundo a bolsa de apostas, trata-se de um rodízio entre perfis já presentes na Esplanada, exceção para o ex-presidente do PT, Ricardo Berzoini, que ocuparia a pasta da Articulação Política.

Segundo essa versão, a atual titular, Ideli Salvati (PT-SC), extremamente desgastada junto aos interlocutores do governo no Parlamento, seria removida para o ministério da Cultura de onde, por sua vez, Marta Suplicy (PT-SP) sairia para o da Educação. O ocupante de hoje, Aloísio Mercadante (PT-SP), iria, então para a Casa Civil, que a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) trocará pela candidatura ao governo do Paraná.

São mexidas com as mesmas peças no tabuleiro que hoje não faz diferença na gestão de governo. Se confirmada, é mais do mesmo. Reforça o PT com cargos estratégicos, cuja influência natural vem sendo neutralizada pelo estilo centralizador da presidente da República. De qualquer forma, desenha um novo “núcleo duro” do PT histórico na antessala de Dilma.

Se a influência do atual ministro da Educação eventualmente na Casa Civil, for na mesma linha apresentada até aqui, o que se pode imaginar é mais velocidade no confronto com o Congresso, considerada a menor distância física entre ele e a presidente no caso da efetivação da mudança. A recente entrevista de Mercadante com advertências ao Legislativo ainda hoje é ruminada pelos parlamentares.

Ricardo Berzoini não sugere caminho diferente, se considerado seu perfil sempre agressivo, do bateu-levou, em relação a adversários, o que autoriza a previsão de mais acirramento com o PMDB – hoje aliado do governo mas às turras com o PT. Não difere, nesse caso, de Ideli Salvati, também considerada de natureza rude demais para o exercício de função em que a sedução é essencial.

De toda a forma, do que mais importa não se tem notícia: a economia. Guardada a ressalva de que não se produz melhoras no setor apenas com troca de nomes, é para ele que estão voltadas todas as atenções dos agentes que podem influir num eventual processo de reversão dos índices negativos do governo. Mais que nome, será preciso que a presidente sinalize alguma autonomia a um eventual novo ocupante do posto.

É sintomático como às especulações se contrapõe a pressão do PMDB pela redução do número de ministérios, sabidamente uma providência na contramão dos interesses fisiológicos que têm orientado a montagem de governos na história política nacional. Como o partido está longe da zona de suicídio, o pedido público por menos pastas tem motivação na percepção de que as mudanças fortalecerão o PT.

Reduz a dependência do partido em relação ao governo, estabelecendo aquele cenário em que a fragilidade passa a ser a sua força. Com a aprovação do orçamento impositivo de emendas parlamentares, que parece inevitável, o governo também perde importante trunfo – talvez o maior de todos – nas relações com o Congresso.

O modo errático como o governo conduz a crise , sob a vertigem instalada depois da queda da presidente Dilma nas pesquisas, parece tê-la levado à decisão de privilegiar mais o PT nas reações à súbita impopularidade, acirrando os ânimos do PMDB, clima agravado pela realidade da campanha eleitoral em curso.

Não há mais dúvida, a essa altura, que o PMDB está construindo trincheiras na percepção de que a batalha vai ganhar dimensão de guerra muito em breve. O Planalto já foi avisado para o risco certo de um revés se a presidente vetar mais propostas aprovadas pelo Congresso e, pior ainda, se contingenciar qualquer emenda parlamentar daqui em diante. Ou fazê-lo seletivamente, dando ao PMDB tratamento de adversário.

Nesse contexto, o vice-presidente Michel Temer tem , no limite de sua dupla condição de presidente do PMDB e vice da República,atuado para amenizar a temperatura da crise entre o partido e o governo. Mas não é tarefa fácil se a presidente mantiver a postura impositiva que já não veste o figurino da ex-recordista de aprovação.

Como também não será fácil a articulação política para qualquer perfil que vier a substituir Ideli Salvati, porque articulação pressupõe negociação, mercadoria em falta no governo.  O que o universo político tenta dizer à presidente – e isso inclui até mesmo petistas – é que ela precisa se abrir às conversas e diversificar seus interlocutores para tornar menos dramática a construção das pontes de saída para a crise.

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