Tanto rosnou o nacionalismo vira-lata, desde a campanha de 2010 – Por Reinaldo Azevedo

Tanto rosnou o nacionalismo vira-lata, desde a campanha de 2010, que o leilão de Libra vira um micro; pior para os brasileiros; Petrobras tomou na cabeça; chineses levam o bilhete premiado

Pronto! Fez-se o leilão do campo de Libra, a suposta maior reserva de petróleo jamais descoberta no país. No fim das contas, as poucas empresas interessadas se juntaram num único consórcio. Até este domingo, a Shell ainda tentava montar uma operação. Não conseguiu. Assim, todas se juntaram, e o consórcio vencedor reúne Petrobras, Shell, Total, CNPC e CNOOC. Alguns tontinhos sem humor não entenderam a brincadeira que fiz com a Pipoca (ver post anterior), aquela que esconde papel de bala e pregador e rosna para quem passa perto. Não! Não estou comparando o campo de Libra a papel de bala; estou comparando o primitivismo nacionalista a vira-lata que rosna. Aí, sim!

Reinaldo Azevedo - Blogueiro e Colunista - VEJA
Reinaldo Azevedo – Blogueiro e Colunista – VEJA

O governo esperava que pelo menos 40 empresas participassem da disputa, todo mundo se acotovelando, enlouquecidamente, para participar. Não aconteceu. As americanas Exxon Mobil e Chevron e as britânicas BP e BG, por exemplo, nem sequer chegaram a se inscrever. Por mais que os nativos rosnem para “proteger” suas riquezas, não há assim tantos interessados.

No sistema de partilha, vence o leilão quem oferece ao estado brasileiro a maior quantidade de óleo, além de pagar o bônus de R$ 15 bilhões: é o chamado sistema de partilha. O único grupo que concorreu ofereceu a quantidade mínima estipulada: 41,65% do excedente. O óleo excedente é o que sobra depois de descontados os custos de produção. A Petrobras teve de ficar com uma cota de mais 10% do consórcio, além dos 30% que já estavam fixados em lei. Assim, em vez de um desembolso inicial de R$ 4,5 bilhões (30% do bônus de R$ 15 bilhões), teve de arcar com R$ 6 bilhões, correspondentes a 40%. A empresa atravessa um momento dificílimo.

Vejam que coisa espetacular! O petróleo do pré-sal foi um dos pilares da campanha eleitoral nacionalista e meio xenófoba do PT em 2010. Dilma, então considerada a chefona da infraestrutura, chama o óleo que talvez esteja lá nas profundezas de “bilhete premiado”, repetindo metáfora de Lula, e dizia que seus adversários queriam entregar o ouro negro para os bandidos. O sistema de partilha — este que está aí, que afastou as gigantes do setor — seria o a garantia de que o petróleo ficaria em mãos brasileiras e coisa e tal.

Também se impôs a participação obrigatória da Petrobras, de 30% pelo menos. Foi obrigada a ficar com mais e agora terá de dar um jeito de se financiar. Sem essa imposição, talvez mais empresas tivessem se apresentado. Com concorrência, o país poderia ter obtido um percentual do óleo excedente maior do que o mínimo exigido. Ocorre que Pipoca, quando invoca com um papel de bala, não o troca nem por um bife suculento, entenderam? As travas nacionalistas respondem pelo insucesso do leilão. Sim, conseguiu-se o bônus de R$ 15 bilhões (ao menos isso), mas o excedente a que o país terá direito ficou no mínimo.

Atenção! A coisa só prosperou, reitere-se, porque se impôs à Petrobras uma carga ainda maior do que ela mesma pretendia e o mínimo estabelecido por lei: em vez dos 30%, terá 40%. As demais participações: Shell: 20%; Total: 20%, e as chinesas CNPC e CNOOC com 10% cada uma. As três primeiras empresas têm experiência na área. Os chineses têm é dinheiro. O mais provável é que acabem emprestando grana à Petrobras. Afinal de contas, o retorno é mais certo, não é? Em Libra, sempre há o risco de não haver tanto petróleo quanto se imagina. Já a gigante petrolífera brasileira honrará seus compromissos, não importa o que ocorra. Quem, de fato, ficou com o bilhete premiado foram os chineses.

Em tempos em que se fala tanto de cartel, observem que as empresas interessadas acabaram operando uma espécie de cartelização branca e a céu aberto. Em vez de Shell e Total insistirem, como vinham fazendo, em formar seu próprio consórcio, entraram em acordo com as demais. No fim das contas, todas se juntaram e ainda enfiaram a faca no pescoço do governo e da Perobras: ou a empresa brasileira aumentava a sua participação, ou não haveria leilão. Sem saída, o governo teve de engolir.

Por que isso tudo? Porque o governa petezada demorou demais. O setor de energia de 2013 já não é o mesmo de 2008, 2009 ou mesmo de 2010. Nos últimos três anos, a tecnologia para a extração do óleo do xisto avançou; campos de petróleo foram descobertos na África, e o que parecia ser um evento fabuloso logo murchou. Pode não parecer e sei que não combina com a patriotada, mas o fato é que o leilão que se realizou nesta segunda conta a história de um mico fenomenal.

Enquanto isso, algumas dezenas de dinossauros babavam nas ruas contra a “entrega de nossas riquezas”, agitando bandeiras do PSOL, do PSTU, do MST e até o do movimento GLBTXWYZ…

 

Por Reinaldo Azevedo

 

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