Ser família – Por Dom Sergio Eduardo Castriani

Nas comunidades católicas do Brasil, três canções do padre Zezinho podem ser entoadas de Norte a Sul e todos, quase que sem exceção, as conhecem e cantam com entusiasmo. A primeira começa com a seguinte frase, um dia uma criança me parou, e de maneira singela apresenta a vida cristã como um caminho para se obter os mesmos sentimentos de Jesus, o que na teologia e espiritualidade paulina é sinal de maturidade.

A segunda invoca Maria de Nazaré, eleita pelo povo Senhora e Mãe do céu, numa poesia que apresenta o mistério da encarnação e o fundamento da devoção a Maria, a mãe de Jesus, que como pessoa humana foi educado por ela e com ela aprendeu a ser gente como todas as crianças do mundo.

Dom Sérgio Eduardo Castriani Arcebispo - Metropolitano de Manaus
Dom Sérgio Eduardo Castriani Arcebispo – Metropolitano de Manaus

A terceira é a Oração da Família. Todos gostam de cantá-la porque exprime o desejo profundo de termos uma família de verdade. Mesmo em tempos de crise e de redefinição de papeis sociais intuímos que nada somos, ou somos muito pouco sem nossas famílias. É nelas e através delas que nos inserimos na história.

Temos passado porque temos família, porque avós, tios e tias nos lembram sempre de onde viemos, são nossas raízes. Com eles aprendemos a falar, a pensar e a sentir, deles herdamos nacionalidade, cultura, pátria e religião. Temos futuro porque temos filhos, filhas, netos e netas, sobrinhos e sobrinhas que continuam no tempo nossos ideais, nossos amores, nossos sonhos.

Temos presente porque vivemos em lares e em unidades familiares, com pessoas que nos amam por aquilo que somos que são solidárias conosco nos momentos difíceis, que nos dizem a verdade mesmo quando esta dói ou gera conflitos.

Nossas famílias são o que nós somos, fortes e frágeis, generosos e egoístas, mesquinhos e idealistas, ambíguos. Elas refletem a sociedade em que vivem, com seus sonhos de consumo, sua violência, seus ideais equivocados, mas também sua generosidade, criatividade, desenvolvimento e avanços tecnológicos.

São desafiadas por tempos novos, de fragmentação, pluralismo religioso, novas tecnologias, uma nova consciência de liberdade e autonomia individual, de superação de preconceitos, de destino comum frente à crise ecológica.

Tudo o que fizermos pelas nossas famílias é pouco. Cabe ao poder público criar condições de trabalho para todos, condições de moradia digna, educação e saúde de qualidade, segurança. Cabe à igreja anunciar a boa nova da família cristã, que vive segundo o Evangelho e que realiza o mandamento novo, que é o do amor mútuo, um mandamento que só pode ser vivido plenamente em família e em comunidade pois trata-se de amor recíproco que supõem ao menos duas pessoas.

O fato de que nem sempre as famílias, por mil razões, não consigam realizar este ideal, não aponta para o seu fim, mas ao contrário aponta para a necessidade de continuarmos a sonhar com uma família bem constituída para todo ser humano e gastar nossas energias para que este sonho se torne realidade. Que Deus abençoe nossas famílias, e que nelas e com elas sejamos mais felizes, mais realizados, mais humanos.

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