Seja ativo e feliz – Por Ruth de Aquino

“Já pensou se todo mundo fosse para a rua protestar contra a sem-vergonhice dos políticos? Seria lindo, não haveria ruas suficientes.” Quem faz o comentário, com brilho nos olhos, não é uma ativista das antigas. Não torce por um partido nem é filiada a um sindicato. É mãe de família, vai à igreja todo domingo, mora na Rocinha. Não foi às passeatas de junho por falta de tempo, não de vontade. Trabalha duro para sustentar os filhos, Laura e Davi. Sonha em protestar de verde e amarelo, quem sabe na próxima manifestação, a “mais gigantesca”, e acompanha tudo pelo Facebook.

Ela é minha manicure e se chama Jô. Tem 39 anos. Seu vício é se aperfeiçoar. Hoje, além de fazer unhas e depilar, é também cabeleireira. E junta dinheiro para entrar num curso de maquiagem. Não conseguiu ser professora. Agora não para de estudar. É uma microempreendedora da beleza, encantada com o novo Brasil: “Os protestos continuarão, não podem parar, o povo acordou”. Ela sempre se revoltou com a roubalheira em governos, prefeituras e no Congresso. “Posso ver ouro em pó na minha frente. Sou incapaz de pegar o que não é meu”, diz Jô. E ri.

Ruth de Aquino é colunista de ÉPOCA.
Ruth de Aquino é colunista de ÉPOCA.

Jô talvez não saiba por que sorri tanto. Credita ao temperamento. Ela é uma dessas pessoas que espalham alegria em volta, mesmo quando sofrem algo pessoal. A perda, ela transforma em aprendizado ou prova de fé. A derrota, transforma em luta, aquela luta serena e determinada de quem sabe que está com a razão. Uma luta sem raiva, sem aquele deboche ridículo do Anderson Silva. O MMA da Jô é outro. Suas artes marciais são seu trabalho e sua família. Uma das batalhas é conseguir matricular a filha numa escola pública de qualidade. Luta com as armas de uma cidadã honesta, ativa e informada. Sabe que seus direitos – aqueles em cláusulas pétreas na Constituição – são violados. O valão com ratos, junto a sua casa, é prova disso.

Jô é feliz. E não por acaso, segundo cientistas ligados à World Happiness Database, em Roterdã, Holanda. Eles mergulharam num estudo universal para entender as chaves da felicidade. A maior delas é exatamente “viver uma vida ativa”.

Para ser feliz e ter uma vida recompensadora, diz o professor universitário Ruut Veenhoven, coordenador da pesquisa, é preciso ser atuante, na vida profissional e pessoal. “Envolvimento é mais importante para a felicidade do que sabedoria. Ser ativo é um pré-requisito mais poderoso para a felicidade do que entender o porquê das coisas, saber por que estamos aqui.”

Engajamento político e interesses pessoais ajudam a evitar tristeza, tédio, inércia e depressão, diz a pesquisa. Provavelmente por isso, a maioria dos brasileiros enxergue nas manifestações de rua um saldo positivo, apesar dos tumultos. O alerta espontâneo das multidões foi mais forte que os protestos organizados pela CUT e pelas outras centrais sindicais. E obrigou políticos a recuar de alguns projetos indecentes. Pesquisa da ONG Transparência Internacional revelou o que todo mundo já sabia: 81% dos brasileiros acham os partidos corruptos ou muito corruptos.

Aqui a matéria completa direto de ÉPOCA.

Ruth de Aquino é Jornalista e Colunista de ÉPOCA. @RuthdeAquino

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