Se não fosse Santana, Lula talvez não seria candidato em 2002

Se não fosse Santana, Lula talvez não seria candidato em 2002

Em delação premiada, marqueteiro contou como fez um prognóstico que ele ajudou os petistas a decidirem lançar Lula em 2002

O marqueteiro João Santana voltou ao passado para contar aos procuradores da Lava Jato como começou a sua relação com o PT. No acordo de delação premiada, relatou que o primeiro contato se deu em 1996, quando o então prefeito de Ribeirão Preto, Antônio Palocci, bateu à porta da agência de publicidade de Duda Mendonça, onde ele trabalhava como funcionário — depois viria a ser sócio. O petista não sabia quem lançaria como seu sucessor e queria uma pesquisa com prováveis nomes. “Duda estava ocupado com coisas mais importantes e passou para que eu atendesse o Palocci”, disse Santana.

No fim, os dois não chegaram a um acordo — o nome apontado com mais chances de sucesso não agradava o então prefeito. “Ele indicou um outro e perdeu a eleição”, lembrou o publicitário. Desde aquela época, Santana se especializava em fazer prognósticos e captar tendências do público.

O caminho de Palocci e Santana voltaria a se encontrar em 2000, quando o petista contratou a agência para fazer o marketing da sua campanha à prefeitura de Ribeirão. Ele ganhou a eleição e, dois anos depois, voltou com uma proposta irrecusável — traçar cenários para a campanha presidencial do PT em 2002.

Segundo ele, lideranças do partido — incluindo o próprio Palocci — acreditavam que Luiz Inácio Lula da Silva não deveria sair candidato em 2002, pois vinha de três derrotas seguidas nos pleitos de 1989, 1994, 1998. “Ele [Lula] tinha restrições do PT e do próprio Palocci que achava que já tinha se candidato várias vezes”, disse Santana. “E mais uma vez fiz o diagnóstico, que era minha especialidade. Por sorte, captou-se uma onda que o Lula poderia poderia ser o candidato vitorioso em 2002. Isso surpreendeu até nós da empresa”.

Na época, o dono da agência, Duda Mendonça, enfrentava bastante resistência dos petistas, pois havia feito a campanha de Paulo Maluf à prefeitura de São Paulo, em 1992. Por isso, Santana assumiu o seu lugar na primeira reunião com dirigentes do PT no Instituto Cidadania — que se transformou depois no Instituto Lula. Ali, apresentou os dados do estudo que indicava o então líder sindical como favorito. “Aí houve uma discussão interna, até calorosa, e terminou prevalecendo aquilo que era óbvio: Lula seria candidato”, disse. A partir daí a história já é conhecida: com a campanha idealizada por Duda Mendonça, Lula seria eleito pela primeira vez.

Em 2005, quando estourou o escândalo do mensalão, Duda Mendonça daria o célebre depoimento à CPI dos Correios no qual admitia que recebeu dinheiro de caixa 2 em uma conta nas Bahamas pela campanha de 2002. Paralelamente, João Santana, que havia rompido com o seu antigo chefe, tocava a sua empresa trabalhando em eleições na Argentina. Na época, foi chamado por Lula e Palocci para apagar o incêndio causado pela descoberta do esquema de corrupção. ”

“Há muito tempo não via um político tão desolado”, disse Santana referindo-se a Lula e reproduzindo um diálogo que teve com ele em Brasília. “Olha, João, estou numa situação muito difícil. Acho que se cometeu muitos erros. Seu amigo [Duda], inclusive, fez um depoimento que eu acho absurdo, maluco… Mas o sr. pode me ajudar?”. O publicitário aceitou, conseguiu criar uma agenda positiva para o presidente e foi contratado para fazer a sua campanha à reeleição em 2006. Começava aí a próspera relação entre o marqueteiro e o PT, que o levaria a trabalhar pela eleição de Dilma Rousseff, em 2010 e 2014, e de presidenciáveis de pelo menos outros quatro países — Angola, El Salvador, Venezuela e República Dominicana.

 

Com Informações do Portal Veja

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