PT controla CPI e veta convocação de Gurgel

Com PMDB ausente, líder Jilmar Tatto teve de se empenhar para ajudar relator a impedir iniciativas da oposição.

Na primeira sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cachoeira, os aliados do governo deixaram claro que o ritmo das investigações será ditado pelo PT. Sem a presença da tropa de elite do PMDB, o líder do PT na Câmara, deputado Jilmar Tatto (SP), ficou sozinho para blindar o governo e teve de agir rápido para impedir a aprovação de requerimento de convocação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, proposto pelo ex-presidente e senador Fernando Collor (PTB-AL).

“A CPI precisa dar um prazo para o relator fazer um plano de trabalho”, argumentou Tatto, que não participa da comissão.

Ao sair em socorro do recém-nomeado relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-MG), o líder petista tentou evitar o debate em torno de uma enxurrada de requerimentos apresentados pela oposição. Os pedidos vão desde a convocação do subchefe de Assuntos Federativos da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, Olavo Noleto, até uma acareação entre o ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) Luiz Antonio Pagot e o contraventor Carlinhos Cachoeira.

Diante da tática do PT, a CPI aprovou ontem apenas requerimentos solicitando a íntegra dos documentos das operações Vegas e Monte Carlo, ambas da Polícia Federal. As duas operações resultaram na prisão de Cachoeira e na abertura de processo no Senado para a cassação do mandato de Demóstenes Torres (sem partido-GO), envolvido com o contraventor. De posse dos documentos, a comissão vai requerer quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico dos envolvidos.

Com o controle praticamente absoluto da CPI nas mãos de aliados, o PT também deixou evidente que não vai dar espaço para a oposição nas investigações. Integrante da comissão, o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) mostrou que será o braço direito de Odair Cunha, ao afastar logo a possibilidade de criação de sub-relatorias na CPI. “Não devemos encaminhar para a sub-relatoria. Isso é esvaziar o relator. Não é o momento de discutir sub-relatores”, afirmou Teixeira.

A próxima reunião da CPI do Cachoeira será no dia 2. O presidente da Comissão, Vital do Rego (PMDB-PB), pretende até lá reunir-se com o procurador Roberto Gurgel e os dois delegados encarregados das operações Vegas e Monte Carlo e convidá-los para fazerem depoimentos. A oposição quer levar a depor o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

Collor. Vinte anos depois de sofrer um processo de impeachment e ser afastado da presidência da República com base em investigações feitas pela CPI do PC Farias, o senador Fernando Collor (PTB-AL) fez ontem, em grande estilo, sua estreia na CPI do Cachoeira.

Tentou aprovar – sem conseguir – a convocação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e participou de conchavos e conversas ao pé do ouvido com parlamentares do PT, partido que ajudou a tirá-lo da Presidência em 1992.

Mais tarde, Collor subiu à tribuna do Senado para chamar os jornalistas de “rabiscadores” e garantir que ficará atento para impedir o vazamento de documentos sigilosos sobre as ações. “Com o apoio da coordenação dos trabalhos, estarei atento para que não haja vazamento de informações sigilosas e protegidas pela nossa Lei Maior”, disse.

Em 1992, a CPI do PC Farias distribuiu à imprensa cópias de cheques do esquema de corrupção pagos a Ana Accioly, então secretária de Collor. As investigações também revelaram o pagamento de um Fiat Elba.

No ataque, Collor advertiu que tentará “evitar que certos meios se prestem a agir como simples dutos condutores de notícias falsas ou manipuladamente distorcidas. E mais, que se utilizem de ações e métodos desonestos (…) para escamotear a realidade dos fatos e burlar a lei”.

Trazendo à cena a mágoa com o processo que resultou em sua cassação há 20 anos, o ex-presidente dedicou à imprensa palavras duras. Segundo ele, “não é admissível, num País de livre acesso às informações e num governo que preza pela transparência pública, aceitar que alguns confrades, sob o argumento muitas vezes falacioso do sigilo da fonte, se utilizem de informantes com os mais rasteiros métodos, visando o furo de reportagem e, sobretudo, propiciar a obtenção de lucros”.

E completou: “Diferentemente da delação premiada, essa prática daninha e pérfida acaba por açoitar e deixá-los livres, tanto uns quanto outros, verdadeiros criminosos e fraudadores, num autêntico processo de coabitada impunidade”.

Fonte: Estadao.com.br

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