Pioneiros na educação, saúde e missão! – Por Dom Moacyr Grechi

No mês vocacional, o 3º domingo de agosto é dedicado aos religiosos, presença marcante na historia da Igreja e da evangelização na América Latina.

Para o papa Francisco “a vida religiosa é para a Igreja como a quina de um navio, a coluna vertebral do barco, a que abre caminhos, a que une todos os seus membros”. Suas palavras aos diretores da Conferência Latino-Americana dos Religiosos (07/07) fortalecem a dimensão mística e profética da vida religiosa.

Dom Moacyr Grechi - Arcebispo Emérito de Porto Velho
Dom Moacyr Grechi – Arcebispo Emérito de Porto Velho

“Vocês são chamados por Deus, chamados para evangelizar e promover a cultura do encontro” disse o papa aos religiosos, sacerdotes e seminaristas, em sua homilia na catedral do Rio de Janeiro (27/07), e acrescentou recordando Madre Teresa de Calcutá: “Nós devemos estar muito orgulhosos da nossa vocação, o que nos dá a oportunidade de servir a Cristo nos pobres. Precisamos ir a eles como o sacerdote que se aproxima do altar com alegria”.

Valorizou os religiosos na vida e missão da Igreja, durante o encontro (21/05) com as Missionárias da Caridade: As pessoas consagradas contribuem de modo determinante para a obra da evangelização, conferindo-lhe a força profética que provém da radicalidade da sua opção evangélica.

São homens e mulheres que escolheram seguir a Cristo de modo radical, na pobreza, na virgindade e na obediência. Penso nos hospitais, nas escolas e nos oratórios onde eles trabalham pelo Reino de Deus, em atitude de completa dedicação ao serviço dos irmãos; penso nos milhares de mosteiros, nos quais se vive a comunhão com Deus num intenso ritmo de oração e de trabalho; penso nos leigos consagrados, testemunhas discretas no mundo, e nas muitas pessoas que estão na vanguarda entre os mais pobres e os marginalizados. Como não recordar aqui os religiosos e as religiosas que, recentemente, derramaram o seu sangue enquanto desempenhavam um serviço apostólico muitas vezes difícil e incômodo? Fiéis à sua missão espiritual e caritativa uniram o sacrifício da própria vida ao de Cristo, em vista da salvação da humanidade (João Paulo II).

O Concílio Vaticano II reafirmou a importância dos religiosos: A Igreja defende e favorece a índole própria dos vários Institutos religiosos. A profissão dos conselhos evangélicos aparece como um sinal que pode e deve atrair eficazmente todos os membros da Igreja a corresponderem às exigências da vocação cristã. Representa na Igreja aquela forma de vida que o Filho de Deus assumiu ao entrar no mundo para cumprir a vontade do Pai, e por Ele foi proposta aos discípulos que O seguiam. Revela aos homens a grandeza do poder de Cristo Rei e a potência infinita com que o Espírito Santo maravilhosamente atua na Igreja e está inabalavelmente ligado à sua vida e santidade (LG 44).

Por ocasião do 40º aniversário da promulgação do Decreto Perfectae Caritatis (1965-2005), que trata darenovação da vida religiosa consagrada, o papa João Paulo II escreveu: Ao longo destes 40 anos, seguindo as diretrizes do magistério da Igreja, os Institutos de vida consagrada e as Sociedades de vida apostólica percorreram um fecundo caminho de renovação, marcado por um lado pelo desejo de fidelidade ao dom recebido do Espírito, por intermédio de seus Fundadores e, por outro, pelo anseio de adaptar a norma de vida, de oração e de ação “às atuais condições físicas e psíquicas dos membros e, segundo o exige o caráter de cada Instituto às necessidades do apostolado, às exigências da cultura, às condições sociais e econômicas (PC 3).

A partir do Concílio Vaticano II a vida religiosa consagrada pôde mostrar seu rosto profético e atender seu apelo: a volta ao Evangelho; ao carisma dos fundadores; a abertura aos sinais dos tempos e à renovação espiritual.

O documento da V Conferencia de Aparecida destaca que os consagrados são discípulos missionários de Jesus: A vida consagrada é um dom do pai, por meio do Espírito, à sua Igreja e constitui um elemento decisivo para sua missão. Em comunhão com os pastores, são chamados a fazer de seus lugares de presença, de sua vida fraterna em comunhão e de suas obras, lugares de anúncio explícito do Evangelho, principalmente aos mais pobres, como tem sido em nosso continente desde o início da evangelização. A vida consagrada é chamada a ser especialista em comunhão, a ser uma vida missionária e discipular, radicalmente profética, capaz de mostrar a luz de Cristo às sombras do mundo atual e os caminhos de uma vida nova, que se requer um profetismo que aspire até a entrega da vida em continuidade com a tradição de santidade e martírio de tantos consagrados ao longo da história do Continente. Os povos latino-americanos esperam a contribuição dos religiosos.  Seu desejo de escuta, acolhida e serviço e seu testemunho dos valores alternativos do Reino mostram que uma nova sociedade, fundada em Cristo, é possível (DAp 216-224).

Em nosso contexto de muitas Amazônias, “com sua diversidade territorial, cultural, social, econômica, religiosa” (Possidonio), a Igreja amazônica tem demonstrado ser possuidora de uma vitalidade extraordinária, pois, não obstante os ventos contrários que batem de todos os lados, assume uma postura profética e uma mística tipicamente encarnada na realidade. Uma Igreja que se dedica, através de seus membros, a anunciar a mensagem do Reino com todo vigor.

A atuação dos religiosos missionários foi significativa para a formação dos primeiros núcleos populacionais da Amazônia, estabelecendo um modelo urbano que se consolidou em todo o interior amazônico (TB/CF/07, 233-236). Os Capuchinhos chegaram em 1612; Franciscanos em 1617; Carmelitas (1626); Mercedários (1639); Jesuítas (1652); Franciscanos da Província da Piedade (1693) e da Prov. da Conceição (1706). Pioneiros na missão, educação, saúde.

Ao avaliar a dimensão missionária da Igreja na Amazonia, os bispos reunidos em Assembléia (1987), escreveram: “A primeira evangelização realizada na Amazônia esteve revestida de muitas ambigüidades, especialmente por causa da ligação que teve com o poder político e militar; a evangelização foi mais uma imposição cultural que um convite a aceitar livremente a presença de Jesus Cristo na vida das pessoas; as distâncias e a escassez de evangelizadores padronizou o sistema de “desobriga” através da qual ser cristão consistia simplesmente em cumprir algumas obrigações impostas, sem suficiente conscientização”. Em resposta aos gran­des desafios, na Assembléia Regional de 1995, a Igreja da Amazonia assume novas diretrizes e sua identidade de ser Igreja Inculturada, a serviço da vida em plenitude nesta realidade pluricultural e desigual, em atitude decidida de serviço, diálogo, renovado ardor missionário, dando testemunho de comunhão. Uma nova evangelização a partir de comunidades eclesiais vivas e acolhedoras, que valorizem as pessoas e as ajudem a integrar fé e vida.

Existe em nossa Arquidiocese um grande número de congregações religiosas, femininas e masculinas, cada qual com uma missão própria. Inseridos na Pastoral de Conjunto (SD 93), os religiosos continuam dando testemunho do Evangelho e de uma vida encarnada na realidade e nas lutas das Comunidades Eclesiais de Base, dos povos indígenas, ribeirinhos e migrantes.

A obra missionária dos salesianos na região amazônica teve início em 1914. Com a criação da Prelazia de Porto Velho recebemos Pe. Pedro Ghislandi em 1925 e Pe. Antonio Peixoto em 1926; Mons. Pedro Massa, primeiro administrador apostólico era salesiano. A 1ª congregação feminina que aqui chegou foi a das Filhas de Maria Auxiliadora em 1937. O primeiro bispo, Dom João Batista Costa, salesiano, assumiu a Prelazia em 1946. Destes filhos e filhas de São João Bosco podemos afirmar que foram, em terras rondonienses, pioneiros na educação, missão e doação. Recordamos Pe. Angelo, Pe. Chiquinho, Pe. Adolfo Rohl e ainda, Padre Alexandre, que no dia 4 de agosto celebramos o 4º ano de seu falecimento; de seus 68 anos de sacerdócio, 43 anos foram dedicados à Igreja de Porto Velho deixando-nos como legado o jeito simples de ser sacerdote no meio do povo.

A Arquidiocese foi ainda enriquecida com as Congregações: Maristas(1970), Beneditinas e Irmãos de N. Sra. de Lourdes (1970-1974), Combonianos e Irs. Marcelinas (1975), Irs Catequistas Franciscanas (1980), Oblatos (1977-1982), Irmãzinhas da Im. Conceiçao (1981), Irs. Carlistas, Palotinos e Capuchinhos (1983), Jesuitas(1988), Paulinas(1991), Irs Sagr. Família e Filhas da Cruz (1995).  Mais recente: Miss. Jesus Crucificado, Irs.Calvarianas, Sagr. Cor. do Verbo Encarnado, Congr. S.Carlos de Lyon, Filhas de Maria Missionária, Irs. Josefinas, Claretianos, Irs. Copiosa Redenção, Miss. Carmelitas, Dehonianos, Ursulinas, Franciscanas do Cor. Jesus, Padres e Irmãs Vicentinas e Orionitas.

“Por tudo o que vocês fazem na Igreja e com a Igreja em favor da evangelização e da humanidade, obrigado” (Bento XVI).

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