Pintos no lixo – Por Alexandre Garcia

Os arruaceiros, na data máxima do Brasil, jogaram uma pá de cal no despertar do gigante adormecido. Com medo, ele foi para baixo da cama. 

Arruaceiros mascarados atrapalharam os desfiles militares, assustaram as famílias que foram assistir às paradas e afugentaram a cidadania democrática que iria exercer o direito constitucional de se reunir sem armas.
Varreram das ruas os que iriam exercer a mais autêntica das participações numa democracia: o direito de criticar, de apontar os erros e de protestar.

Alexandre Garcia - Colunista da agência “Alô Comunicação”
Alexandre Garcia – Colunista da agência “Alô Comunicação”

Bem-aventurado o chefe – de governo ou não – que tem críticos. Porque a crítica é o que evita erros e estimula correções. Os arruaceiros parecem estar a serviço da arrogância que não suporta críticas nem protestos, porque é dona da verdade.

Não podem ser chamados de vândalos. O povo que deu origem ao adjetivo por ter saqueado Roma, não cobria o rosto em ato covarde. Mostrava com coragem a cara para os romanos. Aqui, não podem ser sequer chamados de manifestantes. Porque quem cobre o rosto para arrombar caixa bancário ou para roubar loja, não se chama manifestante, mas assaltante. E como tal deve ser tratado.

Uma máscara pode ter um significado e não quer dizer necessariamente que o mascarado esteja mal-intencionado. Mas o rosto descoberto é bem mais expressivo da indignação cidadã, como foram os caras pintadas de verde e amarelo que ajudaram a tirar Collor.

Aqui em Brasília, no Sete de Setembro, tentaram invadir a Globo. O primeiro que entrou, levou um tabefe do segurança e saiu ganindo como um cachorro com o rabo no meio das pernas. Os outros, com a mesma coragem, não repetiram a tentativa. Limitaram-se a jogar pedras, de longe, danificando automóveis de repórteres que estavam cobrindo o jogo da seleção brasileira.
Depois, quebraram os vidros de um restaurante vegetariano adventista vizinho, que realiza ações beneficentes. Tudo gratuito, sem objetivo outro que não tenha sido destruir. Seria nihilismo, se soubessem o que é isso. Ou anarquismo, que certamente tampouco sabem de que se trata.

Por cidades brasileiras realizaram ataques fortuitos e gratuitos semelhantes. Vi imagens de quando passavam por uma modesta residência e jogaram paus para quebrar as janelas da casa, talvez porque, na cabeçorra coletiva deles, ali morasse uma família de pequenos burgueses.

Quebraram paradas de ônibus e relógios públicos. A ação mais constante e que mais os marcou, como característica desses grupos em toda a parte, foi sobre lixeiras. Por toda a parte, as lixeiras eram a meta deles. Talvez tivessem alguma afinidade com elas, como pintos no lixo.

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