Peregrinos e excluídos – Por Dom Sérgio Eduardo Castriani

Visitantes estrangeiros que chegam ao Brasil se impressionam com o número de escolas que funcionam à noite. São cursos fundamentais, técnicos, de ensino médio e universitário. A grande impressão que fica é que a juventude brasileira trabalha e estuda.
Isto acontece já há algumas gerações. Nos últimos dias assinei centenas de declarações de participação na Jornada Mundial da Juventude para que os peregrinos possam justificar a ausência no trabalho e nas escolas.
Dom Sérgio Eduardo Castriani Arcebispo - Metropolitano de Manaus
Dom Sérgio Eduardo Castriani Arcebispo – Metropolitano de Manaus

Daí a conclusão de que a grande maioria dos jovens que vai ao encontro do papa trabalha, estuda, participa de uma comunidade, está comprometida com a ação pastoral da Igreja e quer construir no presente um futuro que inclui família, profissão, estudos especializados, participação política e cidadania.

Ir ao Rio é uma expressão deste sonho partilhado por toda uma geração e confirmado pela Igreja que se renova com sua juventude. Os peregrinos são convocados a se tornarem missionários, a dar testemunho deste sonho e a reafirmar que encontraram Jesus Cristo Caminho, Verdade e Vida em plenitude.
Num mundo plural e fragmentado são confirmados na sua identidade cristã e católica, sem fundamentalismos e reconhecendo o destino comum de toda a humanidade.
Mas nestes mesmos dias em que os peregrinos experimentam a alegria de partir em caravana, e também a solidariedade da família, da comunidade, e dos amigos que os ajudaram na arrecadação de fundos e os acompanham com suas orações, continuam a morrer jovens assassinados em todos os cantos da nossa cidade.
Cada dia, jornais, telejornais e programas de rádio anunciam a morte violenta de homens jovens. Mortes com causas obscuras ou vagamente explicadas como acerto de contas. Mortes que geram ódio, ressentimento e revolta.
Assim como os peregrinos, estes jovens assassinados também têm famílias, pais, mães, irmãos, irmãs, e até filhos e filhas. Se a peregrinação gera fraternidade, sentido de pertença, sensação de ser aceito e amado, as mortes violentas geram sobretudo o  desejo de vingança.
Seria ingênuo pensar que a Jornada vai resolver a situação. Mas ela com certeza aponta caminhos. A transformação da realidade se dá no dia a dia, e em primeiro lugar na atuação firme e responsável do Estado que arrecada impostos para poder executar políticas públicas em favor da juventude.
É na vida familiar que se tecem relações humanas duradouras, é nas escolas que a educação formal de qualidade abre perspectivas de vida para todos em  igualdade de condições, é na vida das comunidades de fé que a  Palavra de Deus anunciada, ouvida e meditada vai transformando corações e mentes e levando as pessoas a se comprometerem com o anúncio do Evangelho.
Mas, é tempo de festa para a Juventude. Mesmo quem não vai, está envolvido por esta atmosfera de celebração da vida. Jesus Cristo, o mesmo de ontem e de sempre, quer se encontrar com os jovens, sentinelas do amanhã, profetas de um tempo novo que já se faz presente como semente e fermento.

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