Pensar antes de falar – Por Artur Neto

Conheci José Lutzemberger, cientista gaúcho, homem honesto e de valor, através do Senador Evandro Carreira. Fizemos juntos uma viagem inesquecível ao Alto Solimões.

Ecologista devotado, o contato físico com a natureza amazônica o elevou ao êxtase. Sorvia cada momento, bebia cada palavra de índios e ribeirinhos, contemplava as árvores com a curiosidade de quem queria estuda-las e com a alegria do menino que manteve na alma até morrer.

Arthur Neto é Diplomata e foi líder do PSDB no senado

O poente era um momento quase religioso. Quando o sol se retirava de vez com seus raios que mudavam de cor a cada minuto, Lutz respirava fundo e parecia dizer: “vale a pena viver esta vida”. É o que ele me dava a entender no seu silêncio reverente e tranquilo.

Escreveu muito, deu centenas de palestras, debateu, polemizou. Figura admirável, singular.

Com a eleição de Fernando Collor, em 1989, Lutzemberger virou Ministro do Meio Ambiente. Nem me lembro se a denominação da pasta era mesmo essa. Mas a função era, sim, a de Ministro do Meio Ambiente. Sua nomeação significou um grande ponto marcado pelo novo governo junto às organizações ambientalistas internacionais. Afinal, representava um compromisso firme com a defesa e proteção da Amazônia.

Nem tudo é perfeito, porém. E todos nós, seres humanos, estamos sujeitos a errar. Com Lutz não haveria de ser diferente.

Collor fez viagem a Roraima e seu Ministro José Lutzemberger estava na comitiva, obviamente. As autoridades civis e militares de ou em Roraima receberam o Presidente e sua equipe de governo.

Após os momentos protocolares iniciais, o programa incluía a visita a alguns pontos considerados relevantes tanto pelo planalto quanto pelo governo estadual. E, em certo momento, Lutz chamou a atenção da imprensa nacional e internacional presente ao evento. Claro que a imprensa amazônica, a de Roraima logicamente também, estava lá firme e forte.

Lutzemberger, então, mandou bala: “vejam a que ponto chegou a devastação na Amazônia. Olhem esta imensidão de área desmatada, tristemente condenada à desertificação”. Os jornalistas nacionais e, sobretudo, os internacionais, abriram a boca espantados, já pensando na matéria bombástica que tinham para escrever. Os fotógrafos, ensandecidos, começaram a tirar votos dos mais variados ângulos. Até que uma jovem repórter, roraimense da gema, cobrindo a visita de Collor para um jornal local, em tom firme e sereno, se impôs: “há muito desmatamento na Amazônia e eu própria condeno isso, com força. Mas aqui não é o que se deu. Esta área é de campos naturais. Nunca houve floresta aqui”.

Meu amigo Lutz não sabia onde se enfiar. Os jornalistas de fora murcharam, entre tranquilos porque não houve a depredação e decepcionados porque perderam uma grande matéria.

Moral da história: mesmo as pessoas mais sábias, mais eruditas, devem pensar sempre antes de falar. Ou só falar sobre aquilo que se domina mesmo.

Nesse caso, a desinformação de Lutz em nada ajudou – pelo contrário até – a causa ambiental. Calado ele teria sido um poeta, como disse certa vez o atrevido Romário sobre o rei do futebol, Edson Arantes do Nascimento, o grande (em campo, não no jogo de palavras) Pelé.

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