Pastoral da Criança – Por Dom Sergio Eduardo

A Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas realizou uma sessão em homenagem aos 30 anos da Pastoral da Criança, homenagem merecida, pois raras são as instituições e organismos que contribuíram tanto para a sociedade, ultrapassando os seus próprios limites e influenciando esta mesma sociedade muito além do seu raio de ação. Não é necessário fazer um histórico da obra da doutora Zilda Arns fundadora da pastoral, simbolicamente morta num pais estrangeiro, o Haiti, em atividade missionária, país assolado por problemas econômicos e humanos, mas com uma população cheia de vida e de sonhos de liberdade.

Gostaria de refletir sobre as lições que a pastoral nos dá. A primeira delas é a de que ações simples de gente simples, feitas de maneira organizada transformam e fazem verdadeiras revoluções. As ações básicas da pastoral, que são a pesagem das crianças para controlar o seu crescimento e evitar a subnutrição com o uso da multimistura, e o uso do soro caseiro nos casos de diarreia salvaram e possibilitaram vida sadia a milhares de crianças em todos os cantos e recantos de nosso país. Estas ações eram e são realizadas por voluntárias preparadas para tanto em cursos de capacitação com linguagem e conteúdos adaptados a realidade.

Dom Sérgio Eduardo Castriani Arcebispo - Metropolitano de Manaus
Dom Sérgio Eduardo Castriani Arcebispo – Metropolitano de Manaus

Voluntárias e voluntários que oferecem um pouco de seu tempo para que crianças antes condenadas a morrer prematuramente ou a ter uma vida diminuída tenham vida em plenitude.

E aqui está outra lição. A fé move montanhas. Sem mística a vida fica pequena e os sonhos mesquinhos. A partir da fé e do sonho transforma-se a realidade. Situações de desespero dão lugar à alegria de uma vida compartilhada e reconquistada. As celebrações da vida feita por ocasião do peso dão a verdadeira dimensão do viver que se abre para a transcendência e para a partilha, transformando as pessoas, valorizando a solidariedade que começa no lanche simples e frugal, fruto de doação e generosidade dos que ofertam e dos que preparam.

Mas as líderes também aprendem a anotar tudo, a prestar contas, contribuindo para que se conheça melhor a situação das crianças e os progressos alcançados.
A pastoral mostra também que a sociedade civil pode e deve se organizar contando com a ajuda do Estado. Ela é um exemplo concreto daquilo que a doutrina social da igreja chama de subsidiariedade. Aquilo que a família e a sociedade podem fazer o Estado não precisa fazer e deve apoiar. A pastoral não concorre com o Estado nem com seus agentes de saúde, mas chega lá onde o Estado não chega e age de uma maneira que o Estado não age.

É difícil prever o futuro da Pastoral da Criança num mundo e numa sociedade que se transformam num dinamismo muitas vezes incontrolável. Mas uma coisa é certa, a Pastoral da Criança e suas lideranças, na maioria mulheres, já têm um lugar na história deste país, como uma das realidades sociais que mais o enobrecem. O Brasil cresceu em humanidade e em valores com a pastoral. As homenagens são mais que justas, e que a sua memória não se apague.

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