O FLAGELO DA ENCHENTE – Por Artur Neto

Os rios ainda nem atingiram o nível máximo, que está às portas, e o povo começou a sofrer. Já são mais de 40 dos nossos 62 Municípios em Estado de Emergência ou Calamidade, precisando de víveres, roupas e medicamentos, com seus moradores desprotegidos na distância historicamente desestruturada da capital.

Foi-se o tempo, como naquele 1953, quando as águas podiam subir à vontade porque o caboclo estava protegido pela mata ciliar e a população flagelada era bem menor que a atual. Agora, e já faz algum tempo, enchente grande é sinônimo de calamidade.

Artur Virgílio Neto é Diplomata e foi líder do PSDB no senado

Apelo para que toda a ajuda chegue, efetivamente, até os flagelados. A hora é de generosidade, espírito público, caridade. Tomara que o ano eleitoral não contamine a assistência, que é urgente, e que haja muita atenção na repercussão da subida das águas, como marco de providências a serem tomadas a seguir. Algo precisa ser feito, por exemplo, nas ruas do Centro histórico de Manaus, que estão inundadas e precisam de reforço na contenção das enchentes que vêm por aí.

A cena de canoas no Relógio Municipal, na avenida Eduardo Ribeiro – que está muito perto de se concretizar –, com a água chegando à altura da Sete de Setembro, não tem nada de pitoresco ou romântico, sendo, isto sim, uma denúncia explícita de que, passados tantos anos, não tivemos a capacidade de preparar a capital da Zona Franca para passar sem traumas por fenômenos como esse.

Não acredito que a sensibilidade da Presidente Dilma Rousseff, com a expressiva votação que o povo amazonense lhe concedeu, fique nesses trinta e poucos milhões de reais de ajuda do Governo Federal. Acho que ela ainda será levada a entender que a situação é grave. Até porque logo depois da enchente vem a seca, fenômeno tão doloroso quanto o atual. Lembremos que, em 2010, no momento seguinte à enchente recorde de 2009, o Amazonas registrou a maior seca de sua história. Morreu muito peixe e rios se tornaram córregos, como ninguém imaginou um dia pudesse acontecer. E o amazonense não pode ser tratado como brasileiro de segunda classe, recebendo ajuda idem, de um Governo ao qual tratou com expressiva distinção eleitoral.

Nesse regime das águas, entre a subida e a descida, vão sendo disseminadas as doenças de veiculação hídrica, como leptospirose, difteria e tifo, abrindo-se espaço para o cólera, que está sempre rondando a fronteira brasileira no Amazonas.

Vi de perto o tormento do homem de Anamã, que inunda, ano após ano, na grande cheia de 2009. Presenciei em vários outros Municípios, naquele ano, o estoicismo e o heroísmo do caboclo, enfrentando ataques de cobras, jacarés e escorpiões, dentro de casa, para não abandonar o patrimônio que construiu ao longo de toda uma vida.

A enchente traz muitas lições. O Amazonas haverá de aprendê-las, com cada um fazendo o possível para ajudar as autoridades e exigindo delas empenho, compromisso, participação, bem do jeito como deve ser.

Minha solidariedade aos que sofrem. Força. O amanhã logo vai raiar.

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