Não depilei pêlo nenhum durante 14 anos. Por quê? Achava bonito. Ponto – Por Ruth de Aquino

Nem axila, nem virilha, nem perna ou sobrancelha. Dos 22 aos 36 anos, mantive meus pêlos intactos. Por opção. Nanda, acho os seus lindos.

Quando observo a imensa polêmica provocada pelos pêlos pubianos (vou manter o acento circunflexo diferencial que foi ‘raspado’ pela reforma tola) da sensual Nanda Costa, fico estarrecida. Não é que eu não entenda o espírito da coisa. Sei que muitos homens – e talvez principalmente mulheres – detestam a não-depilação. Há argumentos climaticamente corretos. Muito pêlo seria anti-higiênico num país tropical. Mas e a enorme maioria de homens que (ainda) não tiram um pêlo sequer? Eles deixam de ser atraentes ou cheirosos por não depilar? Não, não é isso, Ruth, mulher é outra coisa. Mulher precisa ser lisinha, depiladinha. O problema maior é estético e cultural. Mulher com pêlos costuma escandalizar, por ser “horrível”, “prova de desleixo e negligência”! Masculinidade, ui!

Eu, Ruth, em 1990, numa praia ao Sul da França, quando era correspondente de Fórmula-1 para o Jornal do Brasil (Foto: Album pessoal)
Eu, Ruth, em 1990, numa praia ao Sul da França, quando era correspondente de Fórmula-1 para o Jornal do Brasil (Foto: Album pessoal)

Eu não depilei nada (repetindo: nada – de axila a virilha a perna e sobrancelha) dos 22 anos aos 36 anos. Por quê? Porque fui para Londres aos 22, vi muitas mulheres sem depilar nas praias e nos parques da Europa, vi atrizes no cinema sem depilar. As italianas, que máximo. E achava bonito. Repito: “bonito, belo, natural”. Além disso, dava trabalho raspar e, no fim das contas, também significava ‘atitude’. Era uma postura de liberdade no fim dos anos 70 e, depois, também na década de 1980. Não me sentia menos feminina. Mais fêmea talvez.

Não depilar era, mesmo sem muita consciência, uma atitude política minha. Eu começava a perceber como a desigualdade sexual (nem se falava em “gêneros” naqueles tempos) transcendia países e continentes e se traduzia nos atos mais prosaicos e cotidianos. Homem podia, mulher não podia. Homem conseguia, mulher não. Resolvi deixar a Natureza seguir seu curso, como meu companheiro daqueles tempos, um engenheiro que fazia doutorado no Imperial College, que detestava se barbear e que depois se tornou pai de meu primeiro filho.

Trabalhava na BBC, no serviço brasileiro. A rádio era de ondas curtas, mas os cabelos eram compridos, até a cintura…Não usava maquiagem nem esmalte. Esses produtos inexistiam em meu semibasement (apartamento metade para cima e metade para baixo do rés do chão) em Hampstead, bairro ao Noroeste de Londres.

Voltei para o Brasil – para o Rio, minha cidade favorita, junto com Londres – aos 26 anos. Dos biquínis europeus, só trouxe a parte de baixo. Tentei ir à praia no Rio como ia na Europa, de topless. Não consegui, porque era sempre escandaloso em vez de ser algo natural. O contrário do objetivo. Mas mantive meus pêlos, só clareava os da perna e aparava os da virilha, para não incomodar em tantos dias de praia e frescobol. Não queria chocar, só continuar sendo eu mesma. Na verdade, não entendia por que eu tinha que me depilar ou me casar oficialmente. Não queria fazer uma coisa nem outra.

Não percebi nenhum efeito negativo dos meus pêlos entre homens que eu desejava. Digamos que “os homens que eu queria amar e seduzir” eram exatamente os que estavam se lixando para esse detalhe. Alguns, ao contrário, intuíam que, por trás dos pêlos, havia uma jovem mulher independente e eles cobiçavam essa liberdade. Passado o primeiro instante de surpresa e perguntas, homens me achavam só “diferente” – e, de alguma forma, se não se orgulhavam, ao menos respeitavam. Amigas me questionavam mais. Mas as verdadeiras acabaram também por esquecer o assunto.

 

Ruth de Aquino é Jornalista e Colunista de ÉPOCA. @RuthdeAquino

Aqui a Matéria Completa Direto de ÈPOCA

Deixe seu Comentário