Muito por fazer – Por Alexandre Garcia

Muito por fazer – Por Alexandre Garcia

Semana passada, eu jantava com um alemão de Munique, que conhece o mundo inteiro, mas ainda não estivera no Brasil. Visitou Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro. Perguntei-lhe o que achou do meu país. Ele relutou um pouco, penso que quis ser diplomático, com cuidado de não criticar o país que visitava, e respondeu: “Não compreendo por que não há trabalho para todos os brasileiros, se ainda há tanto por fazer”. Na história dele, quando ainda era menino, nenhum alemão deixou de trabalhar, para reerguer o país arrasado pela guerra. Foi com esse passado que ele me passou a cuidadosa análise.

Um país arrasado pelo atraso, com educação medíocre, banditismo crescente, desordem urbana, lixo, mau cheiro, corrupção, cidades feias, malfeitas, com a sensação de abandono generalizada. Vamos sediar uma competição internacional e ainda estamos despreparados, embora tenhamos tido 7 anos para nos prepararmos, como lembrou um queixoso Joseph Blatter, presidente da Fifa. Ele disse que nunca viu algo igual. É que a cabeça dele não consegue perceber como é o país de Macunaíma.
Assisti à queima de fogos em Copacabana do alto do 26º andar, no meu quarto de hotel. À medida em que espocavam e se abriam em ramalhetes de cores, os fogos arrancavam exclamações e vivas da multidão. Enquanto isso, bandos de ladrões surrupiavam celulares, carteiras, bolsas, do povo que olhava para o céu, extasiado. Segurança pública não existe, mas pensamos que é assim mesmo. Não temos noção de como o nosso país é inseguro.

Os 9 milhões de brasileiros que foram ao o exterior ano passado, boa parte voltou sem comparar o mundo civilizado com o semisselvagem. A maior parte só sabe que no exterior existem lojas com preços menores que os do Brasil. Ano passado, deixamos por lá 25 bilhões de dólares. Só para comparar, dinheiro suficiente para comprar 200 Gripen para a Força Aérea…

Como nos contentamos com o mínimo: no Rio, com sensação térmica de quase 50 graus, ainda enchemos a área contaminada das praias, cercados por arrastões frequentes, e depois vamos para a água do mar malcheirosa. E saímos felizes. Nós, turistas, pagamos por um hotel dez vezes o que ele vale três vezes o que pagaríamos num hotel europeu bem melhor. Somos o país do Carnaval. Vamos ter a alegria do futebol durante a Copa, o único momento em que exibimos a bandeira nacional.

Vamos dar dinheiro para a Fifa e os clubes e depois marcharemos para as eleições como cordeirinhos sem alternativa. Vamos legitimar o mau uso dos nossos impostos. Perdeu-se a distinção entre o certo e o errado; vive-se de aparência e de propaganda enganosa. Meu amigo alemão não conseguiria entender nada disso.
Medidas impopulares – O ano que entra deveria ser o ano das correções de tudo o que está errado, para o que seriam necessárias medidas duras, severas, urgentes, na economia, nas leis penais, na Justiça, na saúde, na educação. Mas boa parte dessas medidas seriam impopulares.

E quem vai adotar medida impopular se está em jogo a reeleição? Assim, também para algum tipo de recuperação, 2014 será um ano inútil. Tudo indica que as providências serão empurradas para 2015. Então, um imenso baú de herança maldita vai cair no colo dos eleitos e dos reeleitos. Os eleitos vão reclamar. Os reeleitos vão enrolar. E tudo vai continuar. Não é o sol, o solo e águas abundantes que fazem um país. É seu povo.

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