Jogo de empurra na telefonia

Governo e teles trocam acusações pela má qualidade dos serviços de celular.

 O setor de telefonia viveu ontem uma guerra de acusações. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), ao proibir TIM, Claro e Oi de venderem novos chips a partir de segunda-feira, acusa as companhias de não investirem o suficiente em capacidade de rede e chama de “esboço” o planejamento apresentado pela Claro em Brasília. Do outro lado, as teles afirmam que as prefeituras demoram para liberar a construção de novas antenas. Os clientes, por sua vez, reclamam da qualidade do serviço das operadoras. Já os analistas criticam a falta de fiscalização do órgão regulador, o planejamento ineficiente das teles de celular e a burocracia municipal. O governo vê falhas em todas as operadoras de telefonia móvel e entende que, para continuarem atendendo à demanda crescente dos consumidores, terão que acelerar investimentos e melhorar o atendimento.
O Brasil hoje tem cerca de 60 mil estações radiobases, as chamadas antenas. É o mesmo número de países como Itália e Inglaterra, cuja população é bem inferior, diz o especialista em rede de telecomunicações Herculano Pinto. Estudo recente de um fabricante de equipamentos apontou que o Rio precisaria de sete vezes mais antenas para ter uma capacidade parecida com a de Berlim ou de Paris. Em São Paulo, o número teria de ser dez vezes maior.

— Mesmo que a Europa tenha mais demanda por dados, vemos que o investimento no Brasil não é suficiente — analisa Pinto.

Após determinar a suspensão de vendas de novos serviços de telefonia móvel de TIM, Oi e Claro, a Anatel notificou também a Vivo, a Sercomtel e a CTBC, que também terão de apresentar planos de investimentos, sob risco de terem as vendas suspensas.

— Invistam ou não vendam. Todo mundo está devendo — diz Cezar Alvarez, ministro interino das Comunicações.

Suspensão orienta decisão de clientes

E a situação pode piorar com a tecnologia 4G. Por estar em uma frequência maior, a capacidade de cobertura é menor. É preciso um número três vezes maior de antenas.

— As empresas venderam e não aumentaram a capacidade de seus equipamentos. Independentemente se a antena é moderna ou não, o relevante é ter capacidade. Se uma célula comporta 50 pessoas, o sinal cai quando entra a 51. A rede não suporta. Além da capacidade, é preciso aumentar o número de antenas para resolver a fraca cobertura no país — diz o consultor Vírgilio Freire, ex-presidente da Lucent.

O executivo de um fabricante de equipamentos diz que o planejamento das teles muitas vezes não considera a melhor localização de uma estação radiobase. Com isso, não corrigem problemas como “áreas cegas”, sem cobertura. Uma antena custa US$ 20 mil:

— E fazer os testes de solo antes de construir uma antena é muito caro. Hoje estamos bem longe, por exemplo, dos países europeus — diz ele.

Freire lembra que o cenário atual se agrava pela falta de fiscalização da Anatel. Em EUA e Europa, os órgãos de fiscalização multam as companhias locais após uma determinada quantidade de reclamações dos consumidores. Além disso, fazem, periodicamente, auditorias nas empresas:

— Aqui, foi a primeira ação da Anatel desde a privatização do setor, em 1998. O pior é que não haverá melhoria na qualidade, pois a Anatel não fez uma auditoria na rede. Ela só se baseou nas queixas e pediu um relatório de investimento para voltar a liberar as vendas.

Especialistas dizem que o consumidor também é prejudicado pela burocracia municipal para a instalação de antenas. A SindiTelebrasil, sindicato das empresas do setor, diz que o processo não leva menos de seis meses. Eduardo Levy, diretor-executivo do sindicato, diz que o setor é um dos que mais investe em infraestrutura, sendo R$ 23 bilhões em 2011:

— Há muita demora em liberar as licenças das antenas.

Mas, o analista de telecom da consultoria IDC Brasil João Paulo Bruder afirma que as leis municipais não podem ser usadas como justificativa para o mau serviço prestado.

A decisão da Anatel já se reflete no varejo. Insatisfeito com a TIM, o analista de sistema Robson Salvador trocará de operadora após a empresa ser proibida de vender seus chips no Rio:

— A decisão da Anatel me deu certeza de que vou tomar a decisão certa.

Segundo o ministro interino Cezar Alvarez, o número de brasileiros dispostos e com dinheiro para consumir levou a uma defasagem entre o que os consumidores usam e a capacidade das empresas:

— Se (as operadoras) não tiveram previsibilidade, falharam. Seus setores de planejamento deveriam prever, conhecendo o perfil de heavy user (usuário intenso) do brasileiro. Houve evidentemente um descompasso, que é fruto de erro de cálculo.

Ele entende que, além das sanções da Anatel, as operadoras serão punidas pelo próprio mercado, já que a suspensão de vendas serve como indicativo para a escolha dos usuários.

— Com o aumento da classe média, das pessoas podendo gastar mais com comunicação, o aumento do tráfego necessita de investimento — disse Bruno Ramos, superintendente de Serviços Privados da Anatel.

Segundo ele, depois de apresentados e aprovados os planos das empresas, haverá um monitoramento mensal das promessas das operadoras. Entre os indicadores que serão acompanhados estão as estruturas de rede, o nível de completamento de chamadas, a duração das ligações e o volume de reclamações. Até o começo da noite, a Anatel não tinha ainda tornado públicos os critérios para apontamento das piores operadoras em cada estado. Segundo Ramos, a TIM, empresa com mais estados onde as vendas estão suspensas, havia questionado esses critérios em reunião à tarde.

A telefonia celular é o setor que tem mais reclamações nos Procons, com mais de 70 mil queixas neste ano, até 30 de junho, segundo o Sistema Nacional de Informações de Defesa do Consumidor (Sindec) do Ministério da Justiça. Essas queixas são 9,13% do total. Por operadora, a Claro tem mais reclamações (37,56% do total de demandas aos Procons no setor), seguida por Vivo (15,19%), TIM (14,55%), e Oi (14,44%).

Fonte: Oglobo.globo.com

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