Histórias de Sérgio – Por Alexandre Garcia

Semana passada eu contei aqui histórias de meu amigo Sérgio, comparando as consequências do que ele e seus parentes e amigos faziam em 1971, e o que aconteceu, com atos semelhantes, 40 anos depois. Agora vou contar outras histórias dele, nascido em 1960. A começar pelo dia em que a filha trouxe o namoradinho para dentro de casa. Sérgio chamou para um canto: “Minha filha, um estivador?”.

Alexandre Garcia - Colunista da agência “Alô Comunicação”
Alexandre Garcia – Colunista da agência “Alô Comunicação”

Foi um caro custo justificar as tatuagens e os músculos inchados. Convidado para jantar com a família, o rapaz aboletou-se à mesa. Sérgio olhou para a filha e para o bonezinho que o jovem não tirava da cabeça: “Alguma religião?”. Quando o moço pegou os talheres como se fossem uma ferramenta de pedreiro e apoiou os cotovelos na mesa, Sérgio perdeu a paciência: “É estivador mesmo!”.

A filha de Sérgio, 17 anos, estava com as amigas no quarto, curtindo uma banda metaleira que haviam baixado. A casa toda tremia. O pai bateu na porta, mas em vão. Abriu e foi atingido pelas ondas de barulho.
Aos gritos, para ser ouvido, disse que já estavam todas surdas, mas que ele não queria perder a audição, e perguntou se não gostariam de ouvir Bach, Tchaikoswki, Beethoven e Chopin, em vez de agredirem o ambiente com decibéis de britadeira fazendo duo com motoserra. As meninas não entenderam, nem ouviram claramente, mas baixaram um pouquinho o volume e Sérgio foi caminhar na calçada.

Meses depois, a menina de Sérgio apareceu com outro namorado. Felizmente civilizado. Abria a porta do carro para ela entrar, mandava flores, segurava a porta para a namorada passar. Sérgio estava feliz. Até o dia em que encontrou a filha se debatendo no banheiro, de porta trancada. Arrombou a porta. A menina havia tomado uma superdose de Rivotril que a mãe usava. Acabou na UTI.

Pergunta dali, pergunta daqui, Sérgio descobriu que o namorado civilizado não era tanto assim. Alcoólatra, usava cocaína. Um moço de 19 anos. Acabava com a própria saúde e com a saúde dos que o cercavam. Bom aluno, educado, envolvente, mas pouco inteligente, porque se tornara escravo do vício. E não conseguiu afastar a filha daquela influência destruidora. A realidade do novo mundo chegara à família Doriana.

Meu amigo não sabe o que fazer. O mundo desabou sobre ele. Quando era adolescente, o máximo que usara era fumar às escondidas, e tomar Pervintin para permanecer acordado às vésperas de exames, para estudar a noite toda. Tentou falar com os pais do rapaz e descobriu que a mãe dele também usava cocaína. Buscou um psicólogo para a filha, mas não deu certo.

Agora ele só fala nos bons tempos de 1971. Fica me perguntando onde foi que erramos, para permitir essa decadência no amor-próprio. Eu só soube responder que até o amor-próprio foi rebaixado a autoestima. Era amor e agora é apenas estima. Deixamos acontecer. Em apenas curtos e rápidos 40 anos.

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