Finados: vidas transformadas! – Por Dom Moacyr Grechi

“Senhor, para os que crêem em Vós, a vida não é tirada, mas transformada e, desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado nos céus, um corpo imperecível”: assim oramos durante a celebração litúrgica de Finados, no Prefácio dos Defuntos.

A reflexão da visão cristã da morte é mais profunda no Dia de Finados quando fazemos memória daqueles que nos precederam diante de Deus na eternidade.A morte é uma experiência que faz parte da vida; é sempre uma perda. Para o Padre Antônio Vieira “a morte tem duas portas: por uma se sai da vida; por outra se entra na eternidade”.

Dom Moacyr Grechi - Arcebispo Emérito de Porto Velho
Dom Moacyr Grechi – Arcebispo Emérito de Porto Velho

Conforta-nos a lembrança saudosa de nossos falecidos; este é um sentimento sagrado, pois reafirmamos que não deixamos de amá-los pelo fato de terem partido para junto de Deus. “Deus não os arrebatou de nós: ocultou-os em seu coração para que permanecessem mais perto do nosso” (Le poème de la sainte liturgie).

“A memória do justo é abençoada” (Pr 10,7). No dia de Finados lembramos, com maior intensidade, todas as pessoas amadas, com quem convivemose, que de alguma forma, ocuparam um lugar importante em nossa vida. Acolhemos o convite para olharmos a vida para além da realidade desse mundo, colhendo lições fundamentais para a nossa existência terrena e eterna.

Nesta semana da saudade, vamos ao cemitério, enfeitamos as sepulturas de nossos entes queridos, prestamos nossas homenagens, acendemos velas, participamos da Eucaristia (missas nas paróquias e cemitérios), agradecemos a Deus pela existência daqueles que participaram da construção de nossa própria história; gestos enraizados em nossa cultura, símbolos da ressurreição. Momento no qual fortalecemos a nossa fé em Jesus Cristo que assumiu nossa morte na cruz, e através de sua morte e Ressurreição triunfou do poder da morte.

Somos confortados pela oração quando oramos pelos nossos pais, amigos e parentes falecidos, para que possam gozar da visão da face de Deus, visto que a morte é um ponto final no tempo, mas não no ser. O papa João Paulo II, por ocasião do aniversário da morte de Paulo VI, definiu esse momento: “Para os crentes, a morte é como um amém final de sua existência terrestre”.

“A memória do justo é para sempre” (Sl 112/111). É esta eterna lembrança que traduz seu testemunho permanente sempre vivo na memoria do povo. Cheios de esperança e iluminados pela fé, lembramos que temos um destino de felicidade que não termina, na contemplação da face luminosa de Deus, pois “nós O veremos como Ele é” (1Jo 3,2). De fato, aesperança dos que têm fé, assim como a de Jó, está alicerçada na certeza de saber que o seu redentor vive e que o verá face a face (Jó 19,23-26).

Acelebração de Todos os Santos(1/11), apesar de preceder o Dia de Finados(02/11),neste ano acontece no domingo(3/11).São duas comemorações interligadas que nos permitem reavivar a comunhão dos santos e orar por todos os fiéis defuntos, não somente nossos queridos, mas também por todas as almas, especialmente as mais esquecidas e necessitadas da misericórdia divina. Osufrágio pelos falecidos renova nossa esperança e o ideal da vida futura, faz com que a Profissão de Fé se transforme em um ato de esperança: “Confesso um só batismo para o perdão dos pecados. E espero a ressurreição dos mortos”. O cristão crê firmemente que existe um elo entre a Igreja da Terra e a Igreja do Céu, igreja militante e padecente e a igreja triunfante.

Através dos ensinamentos de Santo Ambrósio, podemos aprofundar o sentido do culto aos falecidos, bem como a doutrina da ressurreição:

A esperança da ressurreição é atestada pelo testemunho do mundo, da própria essência das coisas, da sucessão das gerações, dos sinais da vida e da morte, da passagem da noite para o dia.

A própria terra não poderia dar os seus frutos se a umidade retirada pelo calor do Sol, por disposição de Deus, não fosse renovada pelo orvalho da madrugada. Que dizer dos frutos? Não morrem? Não caem para tornar a nascer? O que é semeado ressuscitará e o que perece ressurgirá para se transfigurar.

Assim como a terra devolve os seus frutos, da mesma maneira age a nossa natureza. Alguém duvida que o corpo possa ressuscitar do corpo? Semeia-se o grão e nasce outro grão; perece um fruto e outro renasce:

“É necessário que este ser corruptível seja revestido da  incorruptibilidade e que este ser mortal seja revestido da imortalidade” (1Cor 15,53).

A luz da ressurreição é a imortalidade e a incorruptibilidade: que coisa pode ser mais cobiçada do que o eterno descanso e a eterna segurança? Estes frutos são múltiplos… As árvores renascem da semente semeada e, com sua fertilidade saudável, fazem ressurgir os frutos que tinham perecido, conferindo-lhes a antiga forma e este renascer avança anos a fio vencendo os séculos com seu perpétuo retorno. Apodrecem as frutinhas, irrompe o grelo, planta-se a rama e nasce a árvore.

Ora, será que a Divina Providência ocupa-se tão somente em renovar as árvores, sem ter nenhuma consideração para as pessoas? O Deus que não deixa perecer aquilo que Ele mesmo disponibilizou ao serviço da humanidade, permitirá que venha a perecer o homem, criado à sua imagem?… Quem duvidará das palavras do profeta Daniel: “Naquele tempo será salvo todo o seu povo, todo aquele que tiver sido inscrito no livro. Muitos daqueles que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, outros para a vergonha e rejeição eterna” (Dn 12,1-2). Atenção à palavra do profeta: Muitos que dormem. Estas palavras sugerem que a morte não é eterna, mas é como um sono.

Diz-se também que a vida depois da morte é melhor do que a vida antes da morte, sendo esta última sujeita a sofrimentos e doenças, ao passo que aquela é comparada com as estrelas, conforme a palavra da Escritura: Os criteriosos brilharão como luz do firmamento e de muitos justos, como astros para sempre. Na verdade, a vida antes da morte está sujeita a muitos padecimentos e enfermidades.

Nosso Senhor no Evangelho mostra o modo como iremos ressuscitar: Ele não só ressuscitou Lázaro, mas ressuscitou também a fé de todos. Assim, quando lemos a passagem do Evangelho, acreditamos e o nosso pensamento que estava morto, ressuscita na pessoa de Lázaro. Quando Jesus, ao se aproximar do sepulcro, exclamou: “Lázaro, vem para fora”, Ele demonstrou com estas palavras como será a nossa futura ressurreição. Por que exclamou de viva voz, quando podia agir em espírito, podendo dar ordem, sem pronunciar palavras? Certamente para demonstrar o que está escrito: Subitamente, no abrir e fechar de olhos soará o clarim e os mortos ressurgirão incorruptos… Jesus Cristo, o poder de Deus, a luz, a ressurreição dos mortos: a força, levantou o que jazia na morte, a vida fez andar, a luz dissipou as trevas, restituiu a visão e ressuscitou a vida.

E Jesus não deu um único exemplo: ele ressuscitou outros, para que víssemos e crêssemos. Um dia, enternecido pelo pranto de uma viúva, ressuscitou para ela o filho único; Ele se aproximou, tocou o morto e exclamou: Jovem, eu te ordeno, levanta-te! E o morto sentou-se e começou a falar (Lc 7,14-15). Logo que ouviu a ordem, o jovem sentou-se e começou a conversar, porque um é o poder da graça e outra é a ordem da natureza (S. Ambrósio, Sermão sobre a esperança da ressurreição).

Caríssimos irmãos, com esta reflexão, recordemo-nos dos nossos irmãos falecidos, e com toda a Igreja, oremos por todos eles. A oração de sufrágio, de nossa parte, é uma expressão de fé e comunhão fraterna. Deus que está na eternidade vê como presente, nossa oração futura e mesmo passada. Pode por isso, por nossa intercessão, autocomunicar-se amorosamente ao homem e à mulher na situação de purificação que acontece por ocasião de nossa morte, pois no Reino não pode entrar nada de pecaminoso (Ap. 22,15). Um dia “não haverá mais luto, nem grito, nem dor, porque as coisas anteriores passaram” (Ap. 21,4) e faremos parte, ressuscitados, daquela multidão imensa que ninguém conseguia contar… “de todas as nações, tribos, povos e línguas que cantavam em voz forte: A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono e ao Cordeiro” (Ap. 7, 9-10).

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