Enterrar os mortos – Por Dom Sergio Eduardo Castriani

Me disseram que quando nos sítios arqueológicos são encontrados vestígios de rituais fúnebres surge a certeza de que aí viveram seres humanos.
É próprio da humanidade enterrar ou cremar seus mortos dando assim sentido à vida e reconhecendo que a realidade transcende o espaço e o tempo. Numa última despedida manifestamos o que as pessoas são para nós e revelamos quem nós somos e como nos enxergamos.

Dom Sérgio Eduardo Castriani Arcebispo - Metropolitano de Manaus
Dom Sérgio Eduardo Castriani Arcebispo – Metropolitano de Manaus

O drama dos desaparecidos, além de político e institucional, é um drama humano exatamente porque impede às famílias de ritualmente se apropriar da morte de seus entes queridos e torná-los finados, os que chegaram ao fim, encerrando a passagem pelo espaço e pelo tempo e penetrando na eternidade.

Ontem foi Dia de Finados. Visitamos os cemitérios, lembramos os que partiram, sentimos saudades e reconhecemos que nossas raízes buscam sua fonte nas histórias de pessoas que amamos e que nos amaram.

Ter passado é não se submeter à tirania do presente, é reconhecer que a vida foi construída e que nós também passaremos e que haverá um futuro sem a nossa presença física. Ao fazer memória dos falecidos nos recusamos a esquecê-los e ao mesmo tempo reconhecemos que a vida é maior que os poucos anos de uma história tão rápida e às vezes tão turbulenta e frustrante.

Para os que acreditam em Cristo a vida não tem fim, mas é transformada. No centro de nossa profissão de fé encontra-se a certeza da ressurreição de Jesus. Crer na ressurreição de Jesus é acreditar que nós também ressuscitamos. Não se trata somente de afirmar que a alma é imortal, ou que continua a existir em sucessivas reencarnações, mas a nossa fé nos diz que ressuscitaremos na carne, isto é com a nossa identidade pessoal e única. E esta identidade pessoal e única é vivida num corpo que deve ser respeitado.

Daí a importância das exéquias onde nos despedimos do corpo de quem conviveu conosco. Daí toda a mística dos cemitérios onde estão os corpos dos que nos antecederam. É por isso que quando corpos são profanados, cemitérios são descuidados, nos sentimos mal, porque é a dignidade humana que é vilipendiada.

Nós católicos acompanhamos com a nossa oração os que partem para a eternidade. Acreditamos que aí se dá o encontro definitivo e total com o Mistério, que é Amor infinito. A oração pelos defuntos nos coloca em sintonia com eles e cria a comunhão dos santos.

Nós que caminhamos juntos na estrada do mundo não estamos sozinhos no momento final, único e dramático do encontro com a realidade última da nossa vida.

É bom poder visitar um cemitério, melhor ainda quando podemos ali refazer memórias, sentir saudades, renovar a fé na ressurreição. Muitos de nós participamos ontem da Eucaristia celebrada em cemitérios fazendo memória da morte e ressurreição de Jesus, e colocando nesta memória a memória dos nossos entes queridos.

Oxalá nunca sejamos impedidos de enterrar nossos mortos, de ritualmente nos apropriarmos de seu fim e de poder chorá-los. Seríamos menos humanos.

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