Ela pintou o cabelo de azul e foi expulsa do colégio. Isso pode? – Por Ruth de Aquino

“Para mim é o mesmo que uma loira pintar o cabelo de preto”, diz Bell, 17 anos, que até hoje não entende o bullying sofrido no colégio de Uberaba

Isabella Diamantino, uma adolescente mineira de 17 anos, resolveu pintar o cabelo de azul. E esse foi o motivo de toda a confusão em sua escola, o Colégio Cenecista Dr. José Ferreira: o cabelo azul. Dá para acreditar? A adolescente é conhecida pelos parentes e amigos como Bell. Devido à cor inusitada do cabelo, sofreu bullying e foi expulsa da escola. Que escolas conservadoras existem, todos sabemos. Principalmente as religiosas, cheias de regras de comportamento.

Bell em dois tempos, de cabelos castanhos e azuis. (Foto: Isabella Diamantino)
Bell em dois tempos, de cabelos castanhos e azuis. (Foto: Isabella Diamantino)

Agora, até que ponto a escola pode interferir na liberdade individual do aluno, se ele não violar nenhuma regra de convivência? Até que ponto normas escolares não cerceiam o pensamento e não se transformam em bullying? Bullying é um termo originado na língua inglesa (bully = “valentão”) e já corriqueiro no Brasil. Significa assédio – físico e/ou psicológico. Se nos ensinam na escola que não podemos ter preconceitos, muito menos ser “valentões”, por que então a própria escola se sente no direito de discriminar um aluno? Uma instituição dedicada a transmitir conhecimento não deveria confundir disciplina com intolerância.

Conversei com Bell pelo telefone. Queria saber como ela se sentia, já em outra escola de Uberaba, Minas Gerais, um ano e meio depois do episódio. Ela me contou como acabou sendo expulsa de seu colégio. Não foi assim da noite para o dia. Já frequentava as aulas havia um mês com a nova cor de cabelo. Foi advertida pela direção de que teria de se adaptar ao “normal” do colégio e que, caso não quisesse, seria “convidada a se retirar”. Ela precisou conviver com olhares críticos, fofocas e preconceito: “Não é o cabelo azul que diz se você é ‘vagabundo’ ou não. Queria pintar e pintei. É a mesma coisa que uma loira pintar o cabelo de preto. Não entendo por que não pode ser azul”.

Bell afirmou não ter sofrido bullying somente dos colegas, mas do coordenador, que também é professor de filosofia do colégio e era seu mestre favorito: “Eu pintei o cabelo e até então não tinha visto ele. Aí no dia em que ele chegou à escola e me viu, ficou me olhando com uma cara feia. Eu disse ‘oi’ e ele me ignorou. E eu sei que quando ele era adolescente ele tinha cabelo gigante. Quando ficou velho, decidiu usar cabelo ‘careta’” (referindo-se ao cabelo curto).

O diretor, Danival Roberto Alves, deu o prazo de uma semana para que ela trocasse a cor do cabelo, segundo Bell e seu pai. Mas, antes de esse prazo se esgotar, a aluna foi barrada, já dentro da escola, e depois expulsa do colégio. Guilherme Diamantino, o pai de Bell, disse que em nenhum momento foi informado pela instituição de qualquer advertência da escola. Soube pela filha o que houve e se apresentou voluntariamente para tentar resolver a situação.

“O argumento deles foi que os alunos reclamaram e estavam se sentindo incomodados com o cabelo dela. Mas na verdade o problema era o pensamento atrasado da direção. Se fossem espertos eles podiam até ter usado o cabelo da Bell para a publicidade do colégio – que também é azul (risos)!”

Bell diz que seus pais eram ‘punks’ quando eram jovens: “Minha mãe chegou até a ser careca!”. Guilherme afirma que quando estudava no mesmo colégio que expulsou Bell usava calça rasgada e ninguém falava nada. Detalhe: era o mesmo diretor.

 

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Ruth de Aquino é Jornalista e Colunista de ÉPOCA. @RuthdeAquino

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