Eduardo Paes diz que rua rejeita políticos, não partidos

Prefeito da capital que atrairá todos os holofotes no domingo, sede da final da Copa das Confederações, Eduardo Paes (PMDB) diz que os governos erraram e não souberam tirar um legado da Copa do Mundo que está por vir.

“Os governos em seus diversos níveis erraram em não perceber que esse evento tem muito mais do que jogo de futebol”, afirmou, em entrevista concedida em seu gabinete na tarde de quinta-feira.

Em 45 minutos de conversa com a Folha, o peemeedebista, que está em sua quinta legenda, disse que as ruas deixam claro que a população quer ser mais ouvida e reconhece a crise institucional das legendas. “Que partido tem imagem boa? Só os que estão por nascer. É a vida como ela é”. Mas faz um mea-culpa. “O que o país diz é: vamos parar de curtir que viramos democracia, que tiramos 40 milhões da pobreza, que temos pleno emprego, e vamos avançar mais? A classe política deitou em berço esplêndido”.

Eduardo Paes
Eduardo Paes

Paes tenta dissociar o projeto olímpico do clima de mal-estar causado pelos gastos com a Copa, mas reclama de eventuais exageros nas interpretações do momento atual feitas mundo afora.

“Vamos parar com essa mania do Brasil ficar se mostrando um país perfeitinho. Nós não somos. Mas ninguém aqui está lutando por liberdades, direitos para mulheres, a voto. Isso aqui não é primavera árabe. Isso aqui é uma democracia, consolidada, que se manifesta. Não vejo como um problema. Não tem que aceitar essa história de achar que o gringo vai olhar para cá e dizer: ‘Olha, eles fazem manifestação’. Nós somos democratas”.

A seguir, os principais trechos:

Folha – O Brasil e o Rio bateram muito bumbo pela conquista de grandes eventos. No fim do primeiro, a Copa das Confederações, a imagem que fica é de manifestações nas ruas, de violência. Isso o preocupa?*
Eduardo Paes – Obviamente preocupa. Acho que o Brasil perdeu uma oportunidade com a Copa do Mundo. As ruas não disseram que são contra a Copa ou contra a Olimpíada. As ruas dizem o seguinte: somos contra a forma como se fez a Copa.

Em que sentido essa oportunidade foi perdida?
A gente não pode ver a Copa e a Olimpíada como eventos esportivos. Quando o mundo trouxe a Copa e a Olimpíada para o Brasil, eles disseram assim: ªEsse lugar no mundo merece nossa atenção pela sua performanceº. Seul fez a Olimpíada consolidando o papel dos tigres asiáticos, Barcelona faz a sua Olimpíada no momento em que a Europa quis recuperar a Espanha. O Brasil ficou na lógica do evento em si.

O que fez o Brasil perder essa oportunidade?
Um conjunto de coisas. A Fifa tem essa característica… Não estou dizendo se a Fifa é desonesta ou honesta. A Fifa não se preocupa com legado. Preocupa-se com o estádio.

Não é ao governante que cabe esta preocupação?
Começa pela Fifa, mas ela não pauta legado, pauta estádio. A Olimpíada, ao contrário da Copa, é mais manejável. No fim do dia é um prefeito, um governador e um presidente. Não são 12 prefeitos, 12 governadores… O governo federal, quando fez o PAC da Mobilidade da Copa, talvez tenha demorado a perceber que era uma oportunidade de novos investimentos que não guardam relação direta com a Copa.

O governo federal errou?
Não. É muito fácil jogar a culpa no governo federal. Os governos em seus diversos níveis erraram ao não perceber que esse evento tem muito mais do que jogo de futebol.

Foi um bom negócio trazer a Copa?
Acho que sim. Não exploramos [a oportunidade], mas ainda há tempo de recuperar. Não estou preocupado porque a imagem é de manifestação. Vamos parar com essa mania do Brasil ficar se mostrando um país perfeitinho. Nós não somos. Mas ninguém aqui está lutando por liberdades, direitos para mulheres, a voto. Isso aqui não é primavera árabe. Isso aqui é uma democracia, consolidada, que se manifesta. Não tem que aceitar essa história de achar que o gringo vai olhar para cá e dizer: “Olha, eles fazem manifestação”. Nós somos democratas. Anos atrás não se podia fazer manifestação. Aí sim era para ter vergonha.

Mudou algo no planejamento olímpico?
Por enquanto não. Nem a Folha consegue criticar muito a Olimpíada ainda. A gente tem prestado contas. Estou atento a isso. Estava vendo que essa coisa da Copa ia terminar mal. Porque não estava vendo clareza no objetivo. Na Olimpíada, desde o início eu sei que vou fazer estádio [temporário] que vai virar escola no dia seguinte.

Em 2007, o sr. era secretário de Esportes aqui no Rio. Não havia essa discussão de legado?
Não. Nunca vi. No caso da Olimpíada, fui conversar com o [ex-prefeito de Barcelona, Pasqual] Maragall. Ele disse: “Não se preocupa, porque tem dois tipos de Jogos Olímpicos: os que se servem da cidade, e aqueles em que a cidade se servem dos Jogos. Sirva-se dos Jogos. Conflite organicamente com o COI, comande o processo”.

O sr. acha que na Copa não teve esse confronto com a Fifa?
A Fifa não está nem aí para legado, tem a sua culpa. Mas a maior é dos governos.

O tema mais polêmico da Olimpíada são as remoções…
[Interrompe] Que não existem. A não ser uma, a Vila Autódromo. Dizer que a Vila Harmonia, no Recreio, saiu por causa de Olimpíada para fazer o Transoeste [corredor expresso de ônibus que liga Santa Cruz à Barra]… O que a Olimpíada tem a ver com Transoeste?

A favela do metrô…
O que tem a ver? Está rolando aí a Copa das Confederações e as pessoas estão morando do outro lado em apartamentos, muito melhor. Tudo virou, para o bem e para o mal, Copa e Olimpíada. Aquilo ali é um monte de gente morando em péssimas condições. Nunca expulsamos ninguém sem alternativa: aluguel social, apartamento, ou prédio para ficar pronto daqui a um tempo.

Por que a Vila Autódromo vai ser removida?
Porque ali tem o espaço do Parque Olímpico. Tem medidas de segurança, porque está numa área de proteção ambiental, é uma invasão irregular do espaço público e porque eu estou fazendo um belo bairro alternativo com moradia a 500 metros dali. É mentira dizer que tem milhares de remoções por causa da Olimpíada. A maioria é por causa da Transcarioca [corredor de ônibus que vai ligar a Barra ao Galeão]. E não tem atleta que vai usar BRT.

Antes das manifestações a imagem do Rio já estava manchada pela série de estupros…
[Interrompe] Que sequência de estupro?

No Leblon, na van…
[Interrompe] Olha só, a reconstrução da imagem do Brasil e do Rio é um processo. Nosso maior ativo para ganhar a Olimpíada foi dizer que a gente tinha um longo caminho a percorrer. Dizíamos que ela seria um ponto de virada. Nunca escondemos que o Rio tinha problemas com segurança, que o Rio tem problema de mobilidade, que tem pobre e rico. Nunca vendemos o paraíso.

As cenas de quebra-quebra na cidade, operação policial com nove mortos no Complexo da Maré não assustam?
Operação com nove mortos na Maré era toda semana.

Mas ocorrer durante um grande evento como a Copa das Confederações…
[Interrompe] Não é o melhor dos mundos. O ideal é que a gente vivesse num país com características suíças. Se bem que eu ia achar um saco. É o Brasil. Vamos enganar os outros? Infelizmente temos muitos problemas ainda. A cena da Maré era semanal.

Alguém do COI o procurou manifestando preocupação?
Ninguém. Também não mandaram cartinha de solidariedade dessa vez. Por que toda vez que dá uma lambança eles mandam. “Vocês são muito fofos, lindos, maravilhosos”. Nem isso recebi.

Uma das interpretações sobre as manifestações é que as ruas querem interferir mais nas decisões de governo. O sr. acha que se o país estivesse hoje buscando sediar uma Copa ou Olimpíada, a população deveria ser consultada?
Acho que isso não é tema de plebiscito. Nas pesquisas, havia uma aprovação absurda para a Copa e a Olimpíada. Não vamos transformar o Brasil no reino das comunas ou das assembleias. Mas há uma clara posição das ruas de que querem ser mais ouvidos. Há duas questões: um país que clama por serviços de mais qualidade. Isso somado a uma série de valores, com mais força para a questão ética. O desejo de participar não é ficar fazendo plebiscito para tudo. É dizer: “Me ouçam! Não dá para ter impunidade”.

O carioca tem motivos para sair às ruas em protesto?
O Haddad me disse uma coisa curiosa há alguns dias: “São Paulo vem numa situação difícil há algum tempo. Mas até três semanas atrás, eu encontrava um carioca e ficava até com inveja”. Não pode ter mudado tanto. O Rio melhorou, as pessoas reconhecem. O que o país diz é: vamos parar de curtir que viramos democracia, que tiramos 40 milhões da pobreza, que temos pleno emprego, e vamos avançar mais? Em determinado momento, a classe política deitou em berço esplêndido.

O povo tem rejeitado a presença dos partidos nas ruas. Os partidos estão em crise?
As pessoas não rejeitaram os partidos, rejeitam os políticos, os personagens. Essa é uma crise de todos nós.

O sr. faz um “mea culpa”?
Claro. Só se eu fosse um delirante, vivendo no mundo na lua, eu acharia que o povo me ama por ter 66% dos votos.

O sr. que já passou por cinco partidos preferiria disputar uma eleição numa candidatura avulsa?
Não. Não acho que sou um bom exemplo. O sistema político brasileiro é muito frágil. Mas uma das coisas que devo fazer é trabalhar para fortalecer as legendas partidárias. Não porque elas são frágeis ficar… Posso ter minha versão porque mudei tanto, mas não cabe aqui [Paes costuma afirmar que suas passagens por PV, PFL, PTB e PSDB ocorreram acompanhando o ex-aliado César Maia. Na última, foi para o PMDB para candidatar-se à prefeitura em 2008 aliado ao governador Sérgio Cabral]. Meu papel como homem público não é só ser um bom prefeito.

O seu partido, o PMDB, tem uma imagem negativa…
[Interrompe] Que partido tem imagem boa? Só os que estão por nascer. Único partido com imagem boa é a Rede porque ainda não nasceu. É a vida como ela é.

O PMDB deveria mudar alguma coisa?
Deixo com você essa resposta.

Mas é o sr. quem integra o partido.
Deixo com você. Essa resposta é autoexplicativa.

O senhor cedeu à pressão das ruas e baixou o preço do ônibus. É a prova de que esta era uma reivindicação legítima ou foi uma decisão ideológica?
Nem um nem outro. Foi sensibilidade com o que as ruas estavam pedindo. As pessoas estavam se manifestando dizendo de maneira muito contundente que aquilo era inaceitável. Há um momento da manifestação popular em que você precisa dar resposta. Minha passagem é quase trinta centavos menor do que São Paulo e não gasto R$ 1,2 bilhão de subsídio. O modelo que montei é equilibrado. Agora, será que não pode ter avanço? Sei que avancei muito, mas concordo que tem que avançar muito mais. Tanto na qualidade dos serviços como na transparência do processo. Será que terão forças e pressões outras, que não o interesse público, irão agora se manifestar? Será que alguém vai dar uma liminar? Será que alguém vai fazer não sei o quê?

Quando o sr. abaixou a tarifa, disse que poderia subsidiar. Mas depois disse que não precisava…
Não disse que não precisava. No primeiro momento, disse que isso [a redução] significava, anualizado, R$ 200 milhões. Isso tem um custo. Se for um custo para o governo, chegar a R$ 400, R$ 500 milhões, é o custeio das Clínicas da Família. O que anunciei depois é que não iria subsidiar. Porque venho lutando contra o subsídio há três anos.

Não fica a impressão de que o sr. não se esforçou antes para manter a tarifa, e depois encontrou um forma de reduzir?
Não tenho essa fórmula ainda. Ela ainda não foi descoberta, não está colocada. Quero manter o sistema que eu criei, sem subsídio. O que eu anunciei é que eu não vou ceder o sistema que eu montei. Vou buscar catar isso em algum lugar. Posso acelerar a eficiência do sistema, a implantação de BRS, acelerar os BRTs. Talvez tenha que acelerar para isso.

O sr. fez a primeira licitação de ônibus para a cidade, mas ela acabou mantendo os mesmos empresários e teve pouca disputa. Não fica a impressão de um jogo de cartas marcadas?
Quando faz um processo licitatório, com essas características, quem tem 50 garagens estabelecidas pela cidade, 10 mil ônibus, sai naturalmente com vantagem.

Quando o sr. decidiu abaixar a passagem?
Eu vinha refletindo. Quando a voz da rua ficou clara…

O Lula ligou?
Sim, na semana passada.

Ele está preocupado?
O político que não está preocupado com o que está vendo, vive em outro mundo.

Ele sugeriu a diminuição da tarifa do ônibus?
Não, em nenhum momento. Nem a Dilma. Foi uma decisão minha. A única pessoa com quem eu conversei para reduzir a passagem foi o Fernando Haddad. Tomamos a decisão em conjunto.

Como o sr. avalia a reação da presidente?
Acho que o pronunciamento da presidenta e a reunião foram muito importantes. Precisávamos mais de uma demonstração de que o Estado brasileiro estava aqui, vamos respeitar a lei e a ordem. Agora pressupõe ações diretas e objetivas.

E a ideia do plebiscito?
Acho bom. Construir esse debate, uma cultura de plebiscito, de consultas populares. Isso não pode virar um radicalismo, mas em alguns temas sim.

Tem certeza que estará com a Dilma no ano que vem?
Totalmente. Acho fantástico ter uma disputa como Dilma, Marina, Aécio, Eduardo Campos. Algum deles é um populista, demagogo, ladrão? Não é. Mas acho que a Dilma merece ter um segundo mandato.

E no Rio, como o sr. vê essa possibilidade de rompimento com o PT?
Não vejo essa possibilidade. PT e o PMDB devem ter o mesmo candidato.

O episódio da briga que o senhor teve com um carioca num bar pode lhe trazer prejuízos políticos?
Me arrependo, como homem público, de ter perdido a cabeça. Tive uma reação que não deveria ser a reação do prefeito do Rio de Janeiro. Se fosse um cidadão normal, teria sido natural. Mas não sou. Devia ter tido controle suficiente para ouvir aquilo tudo sem reagir. Mas infelizmente não tive. Não sou esse super-homem, não. Gosto de sair, ir para a rua, tomar uma cervejinha, jantar fora com a minha mulher. Mas não fico satisfeito de jantar com a minha mulher e um sujeito ficar xingando a minha quinta geração. Bêbado.

 

Fonte: Folha 

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