Dono da Delta diz a jornal que teme ‘quebrar’ e nega elo com Demóstenes

Fernando Cavendish falou sobre escândalo envolvendo bicheiro preso.
Disse que teve encontro ‘rápido’ com Cachoeira e que nunca viu senador.

O empresário Fernando Cavendish, dono da Delta Construções, empresa suspeita de envolvimento com o grupo do bicheiro Carlinhos Cachoeira, disse em entrevista ao jornal “Folha de S.Paulo”, publicada nesta quinta-feira (19), que teme “quebrar” em razão da “intensidade” das denúncias. Ele negou que o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) seja “sócio oculto” da empresa, como aponta relatório do Ministério Público Federal.

“Vou quebrar. Quando a mídia vem com essa intensidade, existe uma reação imediata de órgãos de controle. Agora virei leproso, né? Agora eu só tenho defeitos, eu sou bandido. O cliente [governo], que é um cliente político, abre sindicâncias para mostrar isenção. Suspende pagamentos. Cria-se um clima péssimo na empresa. Os bancos vão suspender a nossa linha de crédito. Aí vem a Receita Federal. Todos precisam mostrar que a empresa tem que ser fiscalizada. Não tenho caixa. Se eu não receber antes de acabar meu dinheiro, eu quebrei”, disse Cavendish ao jornal.

Fernando Cavendish dono da Delta Construções

Na entrevista, o empresário também falou sobre denúncias de que o senador Demóstenes Torres usou seu mandato para favorecer a Delta, uma das maiores empreiteiras do país. Áudios mostraram conversa entre o senador e o bicheirosobre envio de recursos para uma obra em Anápolis (GO). Demóstenes relata ao contraventor que negociou com o prefeito a contratação do grupo de Cachoeira, o que ocorria, segundo as investigações, por meio da Delta.

Demóstenes afirmou publicamente ser amigo pessoal de Cachoeira, mas negou ter negócios com o bicheiro.

Conforme a “Folha”, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, argumenta que evidências apontam que Demóstenes atuava como “sócio oculto” da Delta. Segundo investigadores, o senador teria articulado contratos em troca de dinheiro.

“Nunca vi o Demóstenes. Ninguém é sócio da Delta. Põe isso na sua cabeça. Já inventaram dezenas de sócios para a Delta. […] Esquece isso. Não existe. É factoide”, disse o empresário.

Cavendish disse que abriu auditoria para investigar a ligação entre o diretor afastado da empresa Cláudio Abreu e Carlinhos Cachoeira. Em diversos áudios, os dois aparecem negociando vantagens para o grupo do contraventor. Há indícios ainda de que a Delta repassou verba para empresas fantasmas e que o dinheiro iria para o grupo do bicheiro.

“Tive um encontro casual no bar de um hotel, o Cláudio estava lá e me apresentou, muito rápido. O Cláudio Abreu nunca informou que dava dinheiro para o grupo de Cachoeira? Nunca. Ele era sócio de terceiros, ia comentar comigo? A gente abriu uma auditoria para investigar essa movimentação”, afirmou e completou que o valor de R$ 39 milhões supostamente desviado era “imperceptível” perto do montante que a empresa “rodou” no período.

Propina a políticos
O presidente da Delta Construções também comentou sobre um áudio divulgado em que fala em dar propina a políticos. “Se eu botar R$ 30 milhões nas mãos de um político, eu sou convidado para coisa pra c… Te garanto”.

“Nesta conversa, eu debatia com sócios da Sygma, empresa que adquirimos por R$ 30 milhões. Eles não performavam. Eu os chamei para negociar o preço e me gravaram clandestinamente. Eu queria dizer: ‘Olha, R$ 30 milhões, se eu fosse fazer projetos políticos, doações de campanha [ganho qualquer negócio]’ […] A expressão foi muito ruim. Ficou horrível, horrível. Agora vou encarar uma CPI da pior forma possível.”

Ele negou que já tenha pago propina a políticos e disse que negociar doações de campanha “é uma coisa legitimada”.

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, composta por deputados e senadores, para investigar as ligações de Cachoeira com agentes públicos e privados será instalada no Congresso nesta quinta (19).

Maior empreiteira do PAC
Fernando Cavendish rejeitou o rótulo de maior empreiteira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), principal programa de infraestrutura do governo federal.

“Essa é uma sacanagem. Quando o PAC foi proposto anunciaram R$ 250 bilhões de investimentos em quatro anos. Quando fizeram um levantamento aí em um site, houve a indicação de que a Delta estava liderando o PAC. A gente tinha faturado uns R$ 400 milhões em 2009. Mas isso era em investimentos dos ministérios. Virei líder do PAC. Sabe quanto vai custar [as hidrelétricas de] Santo Antônio, Belo Monte, Jirau? Só Santo Antônio corresponde ao faturamento de dez anos da Delta. Como posso, com essa minha conta de retalho, […] liderar o PAC? Estou liderando p. nenhuma. Mas fica bonito, na hora de bater no PT, dizer que o líder do PAC está cheio de problemas. Esquece. Eu devo estar em décimo no ranking do PAC.”

Outros governadores
O empresário negou ainda conhecer o governador Marconi Perillo (PSDB), de Goiás, onde, segundo áudios gravados, a Delta teria atuado para favorecer o grupo de Cachoeira. Também disse que “nunca” viu o governador Agnelo Queiroz, do Distrito Federal, onde a Delta tem negócios considerados suspeitos pelos investigadores.

Em relação ao governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, estado no qual a Delta tem diversos contratos, afirmou ser amigo pessoal e afirmou que os contratos são anteriores à gestão de Cabral. Cavendish lembrou o acidente de helicóptero em 2011, no qual morreram a esposa e o filho do empresário e também a namorada do filho de Sérgio Cabral. Os dois participavam de uma festa em Trancoso, no sul da Bahia.

“Eu admiro ele [Cabral] como governante, amigo, pai, filho, irmão. É um puta sujeito. No acidente de helicóptero em quem morreram as pessoas que eu mais amo eu estava com ele.”

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