Dilma e Cabral não precisam ir à missa; precisam é cumprir a palavra. Isso, sim, seria uma atitude cristã – Por Reinaldo Azevedo

A presidente Dilma Rousseff participa hoje, ao lado do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), de uma missa em memória das 33 vítimas dos deslizamentos de Petrópolis. Tá. Todo político tem de ir aonde os problemas estão. Mas é preciso que repudiemos a virtude eventual que serve para ocultar o vício sistemático. Já chego lá.

Sou católico, mas não gosto de ver políticos em igrejas. Se evangélico fosse, não gostaria vê-los dando plantão nos templos. Tampouco aprovaria a mistura incômoda, delinquente às vezes, entre política e religião. Há lugares em que políticos nunca estão fazendo boa coisa — antigamente, costumavam bater à porta de quartéis, por exemplo. Nem Deus nem a vida das pessoas deveriam estar sujeitos à demagogia.

Reinaldo Azevedo - Blogueiro e Colunista - VEJA
Reinaldo Azevedo – Blogueiro e Colunista – VEJA

Penso aqui na candidata Dilma Rousseff indo a Aparecida e se atrapalhando toda na hora da persignação. Tentava, com aquele gesto, eliminar da memória do eleitorado algumas defesas incômodas que havia feito. Ela tinha e tem o direito a uma opinião sobre qualquer assunto. Feio é tentar enganar o distinto público. Na semana passada, os ministros Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) e Marcelo Crivella (Pesca) foram a um encontro de pastores da Assembleia de Deus de Madureira. Carvalho falou dos vínculos inquebrantáveis de Dilma com os Evangelhos. Crivella, que é bispo da Universal do Reino de Deus (a igreja de Edir Macedo), preferiu ser prático: como os pobres, segundo ele, vivem melhor hoje, sobra mais dinheiro para o dízimo.

Começo por este: reduziu a dimensão espiritual a um problema de fluxo de caixa. Sendo quem é e vindo de onde vem, não é de estranhar. A formulação fala por si. Quanto a Carvalho… Em janeiro do ano passado, este senhor participou do Fórum Social Mundial em Porto Alegre e conclamou os petistas a disputar influência com os evangélicos junto à tal nova classe C. Escrevi a respeito. Naquele momento, o chefão do PT tratava seu partido como igreja. E essa disputa, não custa lembrar, está em curso. Os petistas estão usando o caso do deputado Marco Feliciano (PSC-SP), por exemplo, para distinguir os “evangélicos do bem” dos “evangélicos do mal”.

Eu prefiro que os políticos tenham e veiculem valores cristãos, mas, definitivamente, não gosto de vê-los em igrejas. Sabem por quê? Porque, quase sempre, é uma falsidade. Quantas vezes Dilma foi à missa nos últimos 30 anos? Não é obrigada! Todos sabem que não é católica. Em Roma, um tanto descolada da realidade, atreveu-se a dar conselhos ao papa Francisco. A ficha só caiu depois.

Leiam o que informa a VEJA.com. Volto depois.
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Governo federal decreta estado de emergência em Petrópolis
O Secretário Nacional de Defesa Civil, Humberto Viana, decretou estado de emergência em Petrópolis, Região Serrana do Rio de Janeiro, em função das chuvas que deixaram 33 mortos desde a madrugada do último dia 18. A portaria nº 40, publicada no Diário Oficial, diz que o governo federal reconhece a situação do município “em decorrência de deslizamentos de solo e/ou rocha”. De acordo com a Defesa Civil, o temporal provocou 21 pontos de deslizamento ou alagamento na cidade. Do total de vítimas fatais, três morreram após serem hospitalizadas. Levantamento feito pela prefeitura calcula que mais de mil pessoas permanecem desalojadas.

Dilma
Petrópolis entra em situação de emergência no dia em que recebe a visita da presidente Dilma Rousseff, que participa de uma missa em homenagem às vítimas da chuva ao lado do governador Sérgio Cabral. Espera-se que ela apresente uma espécie de versão 2.0 de promessa para solucionar o problema das chuvas na Serra.  Contudo, os últimos acontecimentos políticos em torno das eleições de 2014 podem roubar o foco na chegada da presidente, que já enfrentaria constrangimento suficiente ao se deparar com uma nova tragédia na cidade que não recebeu a lista robusta de obras prometidas em 2011, quando as chuvas também devastaram a região.

Além disso, ela posa ao lado de Cabral logo após o PMDB divulgar um dossiê encomendado pelo próprio partido acusando o senador Lindbergh Farias, do PT, de desvio de verba. E do contra-ataque de Lindbergh que, em um vídeo publicado no Facebook, ressuscitou o episódio da farra dos guardanapos na cabeça de integrantes do primeiro escalão do governo com o empresário Fernando Cavendish, da empreiteira Delta.

Voltei
Eis aí. Lamento ter de escrever isto porque é asqueroso: o fato é que está havendo a politização da tragédia. Os mortos de agora, em Petrópolis, foram paridos pelos mortos de antes. Quando falta ação do poder público, os cadáveres procriam. E estes darão à luz outros tantos no ano que vem se o governo Cabral não mudar seu comportamento, se o governo Dilma não mudar seu comportamento.

A chuva, já escrevi tantas vezes, não é culpa de ninguém. Não cumprir o prometido para as populações carentes, não gastar o dinheiro reservado para a prevenção de tragédias, aí estamos lidando, sim, com a responsabilidade de governos — “culpa”, se quiserem.

Tão logo Francisco foi investido da mitra papal, mandou um recado aos argentinos em particular: “Não venham a Roma ver o papa; doem o dinheiro aos pobres”. Francisco certamente recomendaria a Dilma e a Cabral que se dispensassem de comparecer a um ritual religioso que nada lhes diz (ainda me lembro de Cabral, em defesa do aborto, ter perguntado à audiência, com aquela sua ligeireza habitual: “Quem aqui não teve uma namoradinha que teve de abortar?”).

A maneira que estes dois têm de arcar com suas respectivas responsabilidades de governantes – e, sim, de atuar segundo os princípios cristãos – é cumprindo as promessas feitas ao povo de Petrópolis. Às vezes, ir à missa ou ao culto evangélico é só uma forma privilegiada de ofender os fundamentos do cristianismo.

Por Reinaldo Azevedo

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