Dilma cobra papel dos EUA contra ‘políticas monetárias expansionistas’

Na conversa de uma hora e meia com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na Casa Branca, a presidente Dilma Rousseff cobrou nesta segunda-feira, 9, mais responsabilidade do colega no enfrentamento da crise econômica mundial e isentou a China das consequências pela desvalorização artificial de sua moeda. Embora reconheça a retomada americana como fundamental para a economia global a médio prazo, a brasileira condenou a tática do país para estimular o mercado interno em prejuízo dos demais – em especial, dos emergentes.

“Precisamos ter clareza de que a responsabilidade de todos nós, nesse processo de contenção da crise, de retomada (do crescimento) é compartilhada”, afirmou Dilma, em entrevista sem a presença de Obama, no hotel em que está hospedada. “Ninguém pode falar: ‘Não, eu não tenho responsabilidade, não tenho nada com isso. Não é bem assim.”

Dilma já havia adotado o tom crítico ao papel de seus anfitriões na economia global ainda na Casa Branca, logo após a conversa com Obama. “Essas políticas monetárias, solitárias no que se refere às políticas fiscais, levam à valorização das moedas dos países emergentes, levando ao comprometimento do crescimento desses países”, afirmou a presidente.

Na entrevista coletiva, depois de deixar a Casa Branca, Dilma insistiu na tese. “Apostar só em políticas monetárias expansionistas leva a um verdadeiro tsunami monetário”, afirmou, repetindo expressão usada desde o encontro com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, em março. Naquela ocasião, a chanceler alemã rebateu a crítica, condenando “medidas protecionistas unilaterais”.

‘Joãozinho’. Na entrevista coletiva, Dilma chegou a usar uma expressão mineira (Joãozinho do passo certo) ao comentar as relações bilaterais entre os dois principais países do continente. A presidente afirmou que ninguém é dono da verdade e que o Brasil não tem apenas divergências com os Estados Unidos. “Não podemos acreditar – principalmente nós, as duas maiores democracias do continente -, que todo mundo é Joãozinho do passo certo. Nós não somos Joãozinho do passo certo, nem do passo errado.”

A crítica ao modo como os países europeus e os Estados Unidos têm lidado com a crise econômica global vem sendo citada por Dilma em cada encontro do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do G20, grupo das economias avançadas e emergentes. Mas foi encorpada pelo apoio de todos os parceiros do Brasil na cúpula dos Brics, grupo do qual também fazem parte Rússia, Índia, China e África do Sul.

Isso explica em parte por que Dilma, embora tenha batido na tecla de que a resposta à instabilidade provocada pela manipulação cambial exige ação conjunta e imediata, eximiu a China desse processo. “Os Estados Unidos são um país diferente do resto do mundo. Eles emitem moeda”, argumentou Dilma, ao dizer que a contribuição da China seria diferente porque o país asiático atrelou sua moeda ao dólar.

A brasileira já havia dito ao colega americano que os efeitos da política monetária sobre a América Latina são uma preocupação na região, e o tema será tratado na Cúpula das Américas, no próximo fim de semana, em Cartagena (Colômbia).

Mais tarde, diante de empresários dos dois países, Dilma foi mais didática ao explicar o efeito das medidas monetárias dos EUA na valorização do real e exercitou seu estilo pragmático. “O governo brasileiro tem tomado e continuará tomando todas as medidas necessárias para neutralizar os efeitos nocivos do afrouxamento monetário dos países desenvolvidos”, afirmou a presidente, ao encerrar o seminário Parceria para o Século 21, promovido pela Câmara de Comércio dos EUA. “Nós temos reiterado que o Brasil repudia toda forma de protecionismo, especialmente essas medidas que se configuram como uma espécie de protecionismo cambial.”

Mesmo com as cobranças, a presidente afirmou que a conversa a portas fechadas com o americano, seguida de almoço na Casa Branca, foi “muito positiva”. E acentuou que a retomada da economia americana é imprescindível para a melhoria da perspectiva mundial a médio prazo.

Na parte pública do encontro, porém, nenhum dos dois líderes deu sinal de sincero entrosamento. Dilma mostrava-se tensa, com papéis à mão, e desconfortável. Falou à imprensa durante quase 21 minutos – três vezes mais que o tempo gasto por Obama em sua declaração. Por acordo entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca, os jornalistas não puderam fazer perguntas. Por sua vez, nenhum dos presidentes tocou em temas sensíveis, como o pleito do Brasil por uma vaga no Conselho de Segurança da ONU.

No fim do dia, Dilma jantou na embaixada brasileira com personalidades como as ex-secretárias de Estado Madeleine Albright (Bill Clinton) e Condoleezza Rice (George W. Bush) e o ex-presidente Jimmy Carter.

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