Delta confirma fala de Cavendish sobre o ‘preço’ de políticos

Empresa é suspeita de fazer pagamentos para empresas de fachada de Cachoeira

 A suspeita de que a empresa Delta Construções paga propinas para conseguir obras foi reforçada domingo à noite, com a divulgação de áudio em que o dono da construtora, o empresário Fernando Cavendish, fala dos milhões necessários para “molhar a mão” de políticos. O áudio foi divulgado no site “Quid Novi” pelo jornalista Mino Pedrosa, que já fez trabalho de consultoria para o laboratório farmacêutico Vitapan, de propriedade do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Em nota, a empresa confirma que as falas são de Fernando Cavendish, mas ressalta que elas são parte de uma conversa gravada clandestinamente em janeiro de 2009. Segundo a Delta, “o que é dito ali tem os verbos flexionados no condicional, como um exemplo hipotético, e foi pronunciado num tom claro de bravata”.

– Se eu botar 30 milhões na mão de um político, eu sou convidado para coisa para caralho. Pode ter certeza disso.Te garanto – diz Cavendish.

Em outro trecho, é possível ouvir:

– Estou sendo muito sincero com vocês: 6 milhões aqui, eu ia ser convidado: “ô, senador fulano de tal, se convidar, eu boto o dinheiro na tua mão”.

Cavendish deixa claro que não é qualquer um que vai receber propina dele.

– Eu não me interesso pela raia miúda. Nenhum interesse por raia miúda. Para que raia miúda?

Segundo a Polícia Federal, que prendeu Cachoeira em fevereiro durante a operação Monte Carlo, a Delta transferiu dezenas de milhares de reais para empresas de fachada controladas pelo bicheiro. De acordo com o jornalista que divulgou o áudio, as declarações de Cavendish foram dadas durante reunião da diretoria da empresa.

Leia a íntegra da nota da Delta:

“N O T A À I M P R E N S A

O blog do jornalista Mino Pedrosa divulgou no domingo 15 de maio a edição parcial de um áudio gravado clandestinamente em dezembro de 2008 durante reunião na qual se discutia a cisão societária entre as empresas Delta Construção e Sygma Engenharia.

A Delta Construção tem a dizer sobre isso:

1. O trecho é parte editada de uma longa discussão em que os controladores das duas empresas, Delta e Sygma, discutiam em dezembro de 2008 os termos de uma dissociação. Um dos antigos proprietários da Sygma que estão sendo processados pelos controladores da Delta Construção, gravou a longa discussão e pinçou aquele trecho a fim de promover chantagens negociais contra a empresa.

2. O áudio não representa o que a Delta Construção e seus controladores pensam. Antes de tudo, o que é dito ali tem os verbos flexionados no condicional, como um exemplo hipotético, e foi pronunciado num tom claro de bravata.

3. Tanto a Delta Construção como todos os seus acionistas controladores, diretores e executivos têm profundo respeito pelo Congresso Nacional, pelos congressistas, pelas instituições republicanas e pelo Poder Público.

4. Fernando Cavendish Soares reafirma, por sua vez, que o que está dito naquele áudio gravado clandestinamente em dezembro de 2008 não expressa a sua opinião e foi pronunciado em tom de bravata em meio a uma discussão entre ex-sócios que desde então se enfrentam na Justiça.

Ana Faraco

Conselho de Administração

Delta Construção”

Após o envio da nota, a empresa diz que cometeu um erro quando se referiu à data de gravação do áudio. Em novo comunicado, a Delta retificou a período indicado, alterando-o para janeiro de 2009.

AGU vê irregularidades em 60 contratos da empreiteira com o Dnit

Análise da Controladoria-Geral da União (CGU) mostra que, entre 2007 e 2010, foram constatadas irregularidades em pelo menos 60 contratos celebrados entre o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e a Delta Construções. A extensão do dano pode ser maior, uma vez que, como destacado pela assessoria de imprensa, “o quadro não traz todos os trabalhos realizados pela CGU, mas sim uma amostra das apurações realizadas, entre 2007 e 2010, em obras de diversos estados”.

Essas obras foram tocadas em Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rondônia, Sergipe, São Paulo e Tocantins. Ao todo, esses contratos somam R$ 632,3 milhões, mas não há um valor exato de quanto desse dinheiro pode ter sido desviado.

O PSDB já anunciou que vai tentar ouvir Cavendish na CPI do Cachoeira, assim que ela for instalada. Também vai pedir a quebra dos sigilos fiscal e telefônico do empresário.

– Delta é a empresa que mais recebe recursos do governo federal no PAC, cresceu fortemente nos últimos anos e aparece com frequência nas gravações do caso Cachoeira. Cavendish precisa explicar sua atuação e suas declarações – disse o líder do PSDB na Câmara, Bruno Araújo (PE).

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