Catedral de Porto Velho e a vocação do Coração – Por Dom Moacyr

Estamos iniciando o mês de junho, dedicado ao Sagrado Coração de

Jesus, que é padroeiro da nossa Catedral. Mês das Festas juninas:

visitando nossas Comunidades Eclesiais enfeitadas com bandeirolas

coloridas encontramos muita alegria em torno de seus padroeiros e

santos juninos, celebrados neste mês de junho como Santo Antônio, São

João, São Luiz Gonzaga, São Pedro e São Paulo.

Dom Moacyr Grechi - Arcebispo Emérito de Porto Velho
Dom Moacyr Grechi – Arcebispo Emérito de Porto Velho

Consagrada ao Sagrado Coração de Jesus por Dom João Irineu Joffely,

Bispo de Manaus, a Catedral de Porto Velho faz parte da devoção e da

história de fé do povo de Rondônia. Sua construção foi iniciada com a

colocação da pedra fundamental em 03 de maio de 1917, e as obras

tiveram diversas etapas, sendo consagrada no dia 24 de maio de 1978

por Dom Cármine Rocco, núncio apostólico. Hoje, marco histórico e de

irradiação da fé, podemos admirar a fachada em estilo colonial, na

parte mais alta, a imagem do Sagrado Coração, em bronze fundido do

século XVIII, proveniente da França. As duas torres construídas em

1944 receberam 04 sinos doados pelo governador Aluísio Ferreira. A

Cúpula foi construída na década de 50 e é quadrada, com a parte

superior octogonal. Em sua abóbada estão as pinturas de Pe. Ângelo

Cerri, dos apóstolos e das bem-aventuranças e na nave central, a

oração do Credo e nos quatro ângulos, o quadro dos evangelistas. O

altar foi confeccionado por artistas italianos, de mármore Carrara,

com a Santa Ceia de Leonardo da Vinci, relevo em mármore branco. A

imagem do Sagrado Coração de Jesus chegou a Porto Velho, através de

Dom Pedro Massa em 1945 e conserva ainda as cores originais.

 

A crescente devoção popular em honra ao Sagrado Coração, o

aprofundamento teológico, bíblico e a benéfica utilidade pastoral da

devoção exercitaram pressão para a instituição litúrgica da

festividade.      A devoção ao Sagrado coração de Jesus difundiu-se

especialmente por meio dos padres jesuítas, no início do século XVII.

Destacamos também Santa Margarida Maria Alacoque, São Cláudio de la

Colombière, São João Eudes, na difusão dessa devoção. A este devemos a

primeira composição da Missa e do ofício em honra ao Sagrado Coração.

Anteriormente, São José de Anchieta já havia dedicado ao Sagrado

Coração uma modesta igreja em Guarapari, Espírito Santo, em 1552. São

Pedro Canísio, também jesuíta quarenta anos antes escrevera sobre a

espiritualidade do Coração de Jesus. A aprovação pontifícia, mesmo

limitada, aconteceu em 1765, provocando uma imensa difusão do culto ao

Sagrado Coração. Quase um século depois da aprovação romana, Pio IX

aprovou a extensão da festa à Igreja Universal e promulgou o decreto

em 23 de agosto de 1856. Por ocasião do centenário deste decreto, Pio

XII publicou a encíclica “Haurietis Aquas in gaudio” (15/5/1956).

 

A devoção e a espiritualidade do Coração de Jesus ramificaram-se em

várias associações ou movimentos eclesiais, sendo o mais importante

entre eles o Apostolado da Oração. Também deram nascimento a várias

congregações religiosas, masculinas e femininas como as Irmãs do

Sagrado Coração de Jesus, inseridas na paróquia Nossa Senhora do

Amparo; a Congregação das Irmãs do Sagrado Coração do Verbo Encarnado,

presentes em nossa Arquidiocese, nos municípios de Machadinho d’Oeste,

Cacaulândia e na Capital.

 

Conhecemos ainda o trabalho dos padres missionários Combonianos do

Coração de Jesus, nas comunidades da Paróquia Nossa Senhora das Graças

e em São Carlos e Calama. “Muitos rostos, um só coração”: este lema

foi repetido por ocasião da canonização de Daniel Comboni.

 

Os padres jesuítas estão à frente das comunidades da Paróquia Santa

Luzia; historicamente contribuíram na devoção ao Coração de Jesus. Sua

espiritualidade está centrada nos Exercícios Espirituais de Santo

Inácio de Loyola que terminam com um exercício singular de

contemplação para alcançar o Amor. Santo Inácio acentua o amor como

doação mútua, como entrega de vida, manifestada, sobretudo por obras

de amor. Da parte de Deus, este amor são os dons que dele recebemos e,

mais que estes dons, é ele que se dá a nós, com sua presença, atuação

e reflexão nas criaturas. A consciência deste amor pede de nossa

parte, uma resposta de amor. Daí a oração final: Tomai, Senhor, e

recebei toda a minha liberdade, minha memória, minha inteligência e

toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo. De vós recebi; a vós,

Senhor o restituo. Tudo é vosso; disponde de tudo inteiramente,

segundo a vossa vontade. Dai-me o vosso amor e graça, que esta me

basta.

 

Na Paróquia Nossa Senhora de Nazaré, encontramos os padres do

Sagrado Coração de Jesus, conhecidos também como padres Dehonianos,

que tem como carisma o Amor-Reparador e a vivencia dos sentimentos do

Coração de Jesus em relação aos excluídos da sociedade. Estão

inseridos na missão eclesial, em comunhão com a vida da Igreja e os

responsáveis locais e a exemplo de Pe.Dehon, procuram viver em

sintonia com os sinais dos tempos e em comunhão com a vida da Igreja.

 

Chamados a relançar com fidelidade a missão, precisamos revitalizar a

novidade do Evangelho, a partir de um encontro pessoal e comunitário

com Jesus Cristo, que desperte discípulos e missionários (DAp 11).

Temos, portanto um desafio a nossa frente: mostrar a capacidade da

Igreja de promover e formar discípulos que respondam à vocação

recebida e comuniquem em todas as partes, transbordando de gratidão e

alegria, o dom do encontro com Jesus Cristo (14).

 

A Espiritualidade do Sagrado Coração de Jesus coloca no centro da

vida cristã o Amor de Deus, que se revela na pessoa de Jesus Cristo

(vida, morte, paixão e ressurreição) e no Coração de Jesus

transpassado pela lança, profundamente enraizado na Revelação Bíblica.

Mostrando um amor total de doação de Jesus por cada um de nós.

 

Pode ser que hoje em dia essa espiritualidade não fale mais a nossa

sensibilidade. No entanto, o coração é um órgão que é muito presente

em nosso vocabulário de todo dia, inclusive, com certo grau de

banalização. Por isso, é bom refletirmos neste mês sobre o que implica

esta espiritualidade. E fazê-lo a partir da Bíblia. Desde o Antigo

Testamento, o homem bíblico entende o coração como centro de toda a

pessoa. Por isso quando o salmista diz “meu coração está em festa e

minha alma dança de alegria” está falando de sua pessoa inteira, desde

o seu centro mais profundo, chegando a todas as extremidades e

dimensões.

 

Deus mesmo tem um coração, na mentalidade bíblica. Seu coração é

misericordioso e sofre ao ver seu Filho querido, o povo de Israel, em

perigo de perder-se e extraviar-se. No Novo Testamento, Jesus , em

quem a comunidade reconhece o Filho de Deus, sente, ama, chora e se

alegra com coração humano. Contemplando, pois, o Coração de Jesus,

seus sentimentos, atitudes e critérios, podemos entender melhor a

vocação do nosso coração.

 

Por ocasião do cinqüentenário da encíclica “Haurietis aquas”, o

cardeal Martini escreveu sobre a devoção ao Sagrado Coração de Jesus:

“um dos méritos da encíclica “Haurietis aquas” era justamente ajudar a

pôr todos esses elementos em seu contexto bíblico e, sobretudo pôr em

relevo o significado profundo dessa devoção, ou seja, o amor de Deus,

que desde a eternidade ama o mundo e deu por ele o seu Filho (Jo 3,16;

Rm 8,32,). Um grande mérito dessa devoção foi, portanto, ter chamado a

atenção para a centralidade do amor de Deus como chave da história da

salvação. Mas, para perceber isso, era necessário aprender a ler as

Escrituras, a interpretá-las de maneira unitária, como uma revelação

do amor de Deus pela humanidade. A encíclica marcou um momento

decisivo desse caminho.

 

Devemos ainda valorizar o Apostolado da Oração porque muitas

pessoas encontram nele uma ajuda para viver o cristianismo de maneira

autêntica. Ele coloca à disposição de todos os fiéis, com a oferta

cotidiana do dia em união com a oferta eucarística que Jesus faz de

si, uma síntese prática da vida cristã conforme as palavras do

Apóstolo Paulo: “Exorto-vos, portanto, irmãos, pela misericórdia de

Deus, a que ofereçais vossos corpos como hóstia viva, santa e

agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual” (Rm 12,1).

 

O documento de Aparecida reafirma que é sinal de esperança o

fortalecimento de várias associações leigas, movimentos apostólicos

eclesiais e caminhos de formação cristã, pois ajudam muitos batizados

e grupos missionários a assumir com maior responsabilidade sua

identidade cristã e a colaborar mais ativamente na missão

evangelizadora, desenvolvendo forte protagonismo, para a edificação da

Igreja (DAP 214).

 

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