Aécio Neves em 2014 – Por Murillo de Aragão

Uma das mais figuras interessantes da política nacional é Aécio Neves. Jovem, carismático e com uma carreira de sucesso, ele tem tudo para ser presidente da República. Além disso, mantém uma base política relevante em Minas Gerais.

Murillo Fasano - Cientista Político.
Murillo de Aragão – Cientista Político.

Aécio Neves já foi o queridinho da grande mídia, quando José Serra monopolizava o controle do PSDB. Agora, tendo esperado a sua vez, é o nome do partido para enfrentar a corrida presidencial de 2014. Mesmo não sendo mais o queridinho de antes.

No entanto, muitos levantam dúvidas sobre suas reais condições como candidato. Apontam, por exemplo, aspectos de sua vida pessoal que seriam turbulentos demais para quem quer ser presidente. Outros mencionam as fragilidades da oposição e do PSDB nos tempos atuais.

Ao largo das dúvidas, Aécio pode e deve ser candidato presidencial em 2014. Ainda que seja para perder. As vantagens de disputar são imensas e não se comparam a não disputar nem a concorrer ao governo de Minas.

A primeira vantagem é o fato de que só ganha quem disputa. Mesmo não sendo favorito, Aécio pode se beneficiar de fatores inesperados e terminar vencendo as eleições. Isso não é impossível, apesar do evidente favoritismo de Dilma Rousseff (PT).

A segunda vantagem está em marcar a sua imagem nacionalmente. O nome de Aécio é badalado, mas a verdade é que ele ainda é um ilustre desconhecido para muitos no país. Nas últimas pesquisas, ele aparece com apenas 10% das intenções de voto, atrás, por exemplo, de Marina Silva. Disputando com uma campanha forte e estruturada, Aécio pode construir uma imagem nacional que será útil para outras campanhas.

A terceira vantagem é que uma campanha presidencial é importante para o PSDB se fortalecer nos estados e no Congresso. Saindo-se bem na disputa, mesmo perdendo Aécio consolida-se como líder nacional do partido.

A quarta vantagem é que somente se expondo ao ataque dos outros candidatos Aécio será testado no tocante a seus supostos pontos fracos, por exemplo, sua vida pessoal. O importante é se colocar na disputa e enterrar de vez as suspeitas de que seja um cavalo paraguaio por conta de sua vida social. Ter a coragem de enfrentar as suspeitas e as fofocas é marca de coragem.

Aécio Neves
Aécio Neves

A quinta vantagem é que Aécio precisa construir um discurso sólido e uma campanha presidencial, e esta é uma oportunidade única de debater temas importantes e se posicionar de forma clara.

A campanha pode dar a oportunidade de o PSDB se organizar para o futuro e de Aécio dizer a que veio como político. Até agora, apesar de seus aguardados discursos, ele deixou a desejar quanto a uma mensagem forte.

A sexta vantagem está no fato de que os candidatos do PSDB conseguem ter cerca de 1/3 do eleitorado. Aécio tem de disputar para, no mínimo, cuidar desse patrimônio eleitoral que é, sem dúvida, a base para uma vitória no futuro.

Ao lado das vantagens, existem sérios problemas que Aécio vai ter que enfrentar. Um deles será controlar José Serra. Paira sobre a relação deles sérias desconfianças. Serra pode não ajudar, mas tem o condão de atrapalhar muito Aécio. Estabelecer o entendimento entre ambos é um pré-requisito importante para a campanha de Aécio.

Outro grave problema é o estrelismo amadorístico do PSDB. Os anos de poder não fizeram da legenda uma maquina partidária, e, sim, uma pequena feira de vaidades provinciana. É um partido desunido, sem discurso, sem projeto e com soluções políticas antiquadas.

As estrelas tucanas se acham mais importantes do que o projeto político do partido e nunca, em dez anos fora do poder, conseguiram construir um projeto político coerente. É hora de colocar as vaidades de lado e se unir em torno de um programa que deve ter a cara de Aécio Neves.

Assim, partindo do pressuposto de que existem derrotas e derrotas (Lula sabe muito bem disso) e seja qual for o cenário – com ou sem Eduardo Campos na disputa –, Aécio Neves deve ser candidato, para ganhar ou para perder.

A estratégia de Aécio para disputar o Palácio do Planalto já está em curso. E o primeiro passo para torná-lo mais conhecido em todo o país será dado ainda este mês, quando ele for escolhido para comandar nacionalmente o PSDB. O objetivo dos tucanos é que, ocupando a presidência do partido, Aécio percorrerá o país, entrando em contato direto com as bases e dando início à construção de seu discurso para o embate eleitoral.

O discurso inicial de Aécio Neves tem como foco a suposta “leniência do governo Dilma Rousseff em relação à inflação”. Mas terão destaque também o baixo crescimento do PIB, a paralisia nas obras de infraestrutura e as isenções fiscais seletivas, ingerência do Estado na atividade econômica — o que, na avaliação do senador tucano, gera insegurança jurídica e afasta investimentos.

O modelo de crescimento econômico do lulismo, com foco na demanda, através do crédito, é criticado por Aécio, pois, para ele, “o calcanhar de aquiles está na oferta”. Na avaliação do senador, são necessários, neste momento, mais investimentos privados para compensar a queda do consumo.

Também farão parte do discurso de Aécio as denúncias de corrupção ocorridas durante os governos petistas (condenação de mensaleiros e outros casos). Os tucanos também irão explorar o que avaliam como “viés autoritário” do governo.

Ao criticar esse “viés autoritário”, Aécio acredita que será possível seduzir os eleitores das classes A e B dos grandes centros urbanos, onde, segundo pesquisas qualitativas, haveria um esgotamento do PT.

A nova agenda buscada por Aécio Neves para o PSDB também procura romper o processo de isolamento a que a oposição foi submetida nos últimos anos. Disposto a ampliar seu leque de alianças para além do DEM, Aécio tem se aproximado de Marina Silva, o que pode ser observado no apoio dado pelos tucanos à criação do partido da ex-senadora, o Rede Sustentabilidade.

Aécio também flertou com o governador Eduardo Campos (PSB-PE), ao dar-lhe as “boas-vindas à oposição”, após as críticas realizadas pelos socialistas ao governo Dilma em seu programa partidário.

Outra liderança com quem Aécio Neves mantém proximidade é o deputado federal Roberto Freire, grande articulador da fusão PPS/PMN, que deu origem ao partido Mobilização Democrática (MD).

Por fim, Aécio flerta com o deputado federal Paulinho da Força (PDT-SP), que, no dia 1o de maio, levou o senador tucano até um ato promovido pela Força Sindical para comemorar o Dia do Trabalhador.

Tais movimentos buscam dois importantes objetivos: 1) evitar que PSDB e DEM fiquem isolados no tabuleiro; 2) garantir, através da ampliação de aliados, mais tempo de TV; 3) flertar com forças políticas de centro e centro-esquerda. Enfim, buscam armar uma candidatura minimamente competitiva. Para ganhar ou para perder bem.

 

Murillo de Aragão é Cientista Político.

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