A iniciação aos mistérios – Por Dom Sergio Eduardo Castriani

Dona Deolinda foi a catequista que me preparou para a primeira comunhão. Com ela aprendi as principais orações, os dez mandamentos da Lei de Deus, os mandamentos da Igreja e as obras de misericórdia.

O catecismo era o de perguntas e respostas que devíamos aprender de cor. Lembro-me ainda do jejum eucarístico, da importância do silêncio, da genuflexão correta diante do Santíssimo Sacramento.

Costureira, nunca se casou e passou a vida cuidando dos outros, primeiro dos irmãos e irmãs mais novos, depois dos pais, e já no final da vida, de sobrinhos e sobrinhas com seus filhos e filhas, maridos e esposas.

Dom Sérgio Eduardo Castriani Arcebispo - Metropolitano de Manaus
Dom Sérgio Eduardo Castriani Arcebispo – Metropolitano de Manaus

Mais tarde, tive a oportunidade de estudar filosofia, conhecer grandes pensadores e ser aluno de mestres competentes. O estudo da exegese, da teologia, da moral, da liturgia e do direito abriram horizontes, questionamentos, e a fé se confrontou com a razão.

Mas as convicções fundamentais, a postura diante da vida, o senso de responsabilidade, a alegria do dever cumprido, o valor fundamental que me tem feito caminhar, ter esperança, devem mais a dona Deolinda que a tudo que veio depois.

Na sua simplicidade de vida, na sua vivência do essencial, no seu olhar de fé que dispensava provas porque a presença de Deus em tudo é tão evidente, ela formou gerações de homens e mulheres que fizeram frutificar as sementes do Reino semeadas em corações de crianças que ainda se extasiavam diante do sagrado que se manifesta nas pequenas ações, nos pequenos sacrifícios, nas orações ditas de coração e decoradas, nas imagens e símbolos que a cultura religiosa transforma em inspiração de bondade e misericórdia, mas, sobretudo, da Eucaristia, o pão vivo descido do céu.

A nossa história pessoal deve muito a pessoas que simplesmente viveram e transmitiram o que tinham de mais sagrado e precioso, a sua fé.

No mês de agosto, o último domingo é, na igreja, o Dia do Catequista. São homens e mulheres, mais mulheres que homens, muitos deles jovens, alguns até adolescentes que se encantam com o evangelho, com a vida da igreja nos seus ritos e orações, com a doutrina que se acumulou de geração em geração, com a palavra contida nas Escrituras.

E a partir deste encantamento gastam tempo, preparam-se, e anunciam o evangelho iniciando na fé e no mistério crianças, adolescentes e adultos.

Nas pequenas comunidades, são referência para a vida de fé, celebrantes, líderes comunitários. Não terão seus nomes inscritos nos livros de história e provavelmente não estarão nas páginas dos jornais.

Não receberão medalhas e troféus, mas com certeza terão contribuído para a edificação da igreja e para a construção de uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais humana.

Os catequistas não têm ouro nem prata, não ensinam profissões e técnicas, mas transmitem o que há de mais precioso, sua fé em Jesus Cristo. Que as homenagens simples e singelas que receberão no seu dia consigam expressar a gratidão que todos trazemos no coração.

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